A luz dourada começava a salpicar pequenas gotículas no céu laranja.
Ou rosa.
Tanto faz, aquelas pessoas não se importavam de forma alguma...
Apenas uma garotinha parecia notar o enorme show de luzes que aquele fim de tarde de outono proporcionava, aliás, ela não só percebia como também refletia fielmente os jogos de luz e sombras no céu em seus olhos.
E seus olhos brilhavam.
Mas ninguém viu, montes de corpos flutuavam pelo espaço de forma extremamente apressada, todos pareciam estar indo á algum lugar bastante desagradável.
- Mas por que estavam com a pressa de quem vai ao parque de diversões se seus rostos retratavam uma ida ao dentista? - pensava a menina minutos antes de ser atraída para ver o que acontecia em algum lugar do infinito sobreposto a sua cabeça.
É, também não faço ideia, mas a pequena ainda teria todas as suas dúvidas retiradas de si como quem colhe frutas verdes de enormes plantações.
Ou melhor dizendo, suas dúvidas seriam roubadas.
Sim, pois no mundo dos adultos humanos os questionamentos são simplesmente esquecidos, como se jamais tivessem existido, os adultos humanos passam a uma forma de existência em que não há a real essência da palavra 'existir'.
Ou da palavra 'viver'.
Tanto faz, o fato é que eles apenas vagam por aí, destroem o espaço em que vivem, criam conceitos e costumes que só servem para restringir sua própria existência, com o perdão da palavra, são idiotas.
Mas a menina ainda não tinha o conhecimento dessa realidade amarga que a esperava, e provavelmente nunca chegaria a ter, pois certas coisas são ignoradas por todos, mesmo que tenham em si uma enorme importância.
Talvez o não saber seja melhor nesse caso, não acho que tendo conhecimento de tal coisa sua forma de viver seria de alguma maneira alterada.
O fato é que, enquanto esperava sentada ali, pude ver com real admiração a forma deslumbrada como aquela pequena humana descobria a quantidade de coisas fantásticas a sua volta.
Quando, para a minha decepção, chegou o seu pai, comportando-se exatamente da mesma forma que os outros seres a sua volta, era estranho o modo como ele interagia com a garotinha, sem sequer olhar para ela.
Então, ela olhou confusa para o pai e perguntou:
"Pai, você sabia que o céu não é azul?"
Os dois saíram andando em direção a rua, quando de repente passou um ônibus de 3 andares por cima deles.
O sangue da menina se projetava por toda a extensão da rua, mas seus olhos continuaram intactos com suas pupilas dilatadas apontando para o céu.
Clarissa Xavier - www.milguilhotinas.blogspot.com
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