O lugar estava cheio de gente. Gente pra caramba. Dançando, conversando, bebendo, socializando. Fazia tempo que não saia. Estava naquele relacionamento fazia 5 anos. E levar um chute não é nada bom. Nem um pouco reconfortante. Principalmente quando você foi chifrada. E tem a leve impressão que existe MESMO um par de chifres na sua cabeça e todos olham pra você com expressão de compadecimento. Ah vá.
Por conta disso tudo, ela pintou o cabelo, se valorizou, entrou na academia, malhou, malhou. Aproveitou e resolveu dar uma olhadinha naquela loja de griffe nova ao lado da academia. Ela deu de cara com ele. Não com o ex. Com aquele vestido que...que...parecia que tinha sido feito pra ela.
Não pensou duas vezes. Nem sequer olhou a etiqueta. O preço não importava agora. Abriu a bolsa, pegou o cartão. Não dividiu, foi à vista. Só pra poder dizer para as amigas: ''Foi à vista.''
Era um sábado especial. Passou a manhã no SPA, se valorizando. Foi pro salão,e lá fez as unhas. Pintou de vermelho luxúria e deu uma chapinha PODEROSA que nem gofo de bebê derruba.
Chegou em casa e afundou na banheira. Porque existe todo um processo de preparação para uma balada pós-chifre, sabe? Bem, espero que não saiba como é isso...
Botou o vestido, colocou uma tonelada de maquiagem na cara, tomou um banho de perfume francês, olhou pro espelho e fez cara de poderosa.
''É hoje. Que eu saio dessa fossa crise pós-chifre. Vou encontrar um cara lindo e rico que vai me valorizar e me fazer feliz. (: ''
(Aham...vai nessa...)
O lugar estava cheio de gente. Gente pra caramba. Dançando, conversando, bebendo, socializando. Fazia tempo que não saia. Mas ela sabia o que fazer. Chegar, quietinha, como quem não quer nada, sentar no banquinho, lá no balcão, pedir um drinque e fazer cara de ''pode vir que vou fazer seu tempo valer a pena''. Foi assim que conseguiu o outro. Vai ser fácil.
Mas não foi fácil. Ninguém chegava, ninguém investia, ninguém se interessava. Ela começou a desanimar. Resolveu tomar mais uma. E outra. Mais umazinha, só pra não ficar sem fazer nada. E outra, só pra fechar.
É, ela tomou muitas. E resolveu se levantar pra ir ao banheiro. Passando no meio da pista de dança, ela avistou ele. Não o ex. Mas ''O Cara''. Ele era lindo. Lindo demais pra ser verdade. O tipo de cara alto, dos olhos castanhos, cabelos negros e perfeitamente e incrivelmente lisos, e com um sorriso...nossa! E olha só, que coisa! Tava desacompanhado, dançando sozinho com um drinque na mão.
Ela, seguindo o ritmo da música, foi dançando na direção dele, que achou o comportamento dela no mínimo, estranho. Parecia mais uma dança do acasalamento. Aparentemente, ela perdeu o jeito no quesito ''conquista''.
Mas, enfim...deixando se levar pela música, os dois foram se aproximando, dançando. Ela usava um salto-agulha e estava sob pleno efeito da bebida: totalmente desequilibrada. Mas isso não a abalava, ela tinha que conquistar aquele cara, senão ia continuar na fossa crise pós-chifre. Ela olhava fundo nos olhos claros do rapaz, que sorria, divertindo-se com toda aquela situação inusitada. Ela dançava ao som da música. Ela dublava e sorria. Ele retribuia.
Ela não viu a pocinha. Alguém tinha acabado de vomitar ali. Nem ele viu aquilo. Ela escorregou. Bateu no garçom, que caiu. Ela caiu também. Ficou por cima de todo aquele vômito e coberta de cacos de vidro dos copos quebrados da bandeja que o garçom segurava. Sem rastro de sangue, pelo menos. Mas foi bem nojento. Ela começou a rir descontroladamente. Ele ria enquanto a ajudava a se levantar.
Ela estava suja, mas estava perto dele. Agora, muito próxima. Tão próxima que podia beijá-lo ali mesmo. Mas ela estava coberta de vômito. Eles ficaram se encarando no meio da pista, sem dizer nada, mas eles sabiam, sentiam aquilo: foram feitos um para o outro.
A bola de espelhos acima deles rangia ao girar. Todos olhavam pra cima, menos eles, encantados um com o outro. A bola de espelhos fez um barulho horrendo e despencou, esmagando o casal. Estavam atrofiados, perfurados por milhares de cacos de espelhos, abraçados.
Ao menos morreram abraçados. E sorrindo.
A morte chega na hora errada de vez em quando.
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
Jullya vive! (Parte 2)
A morte da menininha do casaquinho branco causou comoção geral na cidade de Vitória de Santo Antão, e nas suas redondezas. Ela era muito querida por todos os habitantes, principalmente pelo vendedor de cachorro-quente. Sem falar nos adoradores de desenho animado. E naquelas pessoas que gostavam de caminhar com Jullya no meio do mato. Eu sei, é um hábito, no mínimo estranho. Vai entender...
Pois bem, como todos sabem, o trem deveria estar parado naquele dia. Então, como explicar o fato de que ele saiu do nada, atropelando menininhas inocentes por aí? A pessoa que dirigia o trem, não foi vista, até porque, TAVA TODO MUNDO CORRENDO COM MUITO MEDO, NÉ?!
Então, o criminoso fugiu e a polícia não se importou com a morte de Jullya. Era só uma menina qualquer. Por isso, nem sequer fizeram questão de investigar as causas da morte trágica de Jullya. Nem mesmo se importaram em saber quem era o dono da vaca.
(Sabia que eles apreenderam a vaca como ''parte'' do caso e fizeram um churrasco altamente suspeito no domingo seguinte? nãoespalha. :x )
Beleza...tava todo mundo muito triste com a partida de Jullya. Dentro de 3 semanas, todo mundo começou a se revoltar com o descaso dos policiais. Foi aí que aconteceu...
O centro da cidade estava repleto de pessoas carregando placas que diziam ''Jullya vive!", ''Ju estará sempre em nossos corações!", ''Selinho: 1 real'',...dentre muitas outras. Todos os habitantes daquela pacata cidadezinha estavam lá. E quando eu digo TODOS, é TODOS mesmo, com exceção, é claro, dos policiais. Pretendiam fazer uma passeata revolucionária em direção à delegacia para pedir providências ao delegado.
No meio do caminho, do nada, e simplesmente, do nada, surgiram MUITAS vacas. E quando eu digo MUITAS, são MUITAS mesmo! Só Deus sabe de onde saiu tanta vaca. --'
Bem, e elas vieram correndo loucamente pra cima das pessoas, atropelando todas elas.
Muitas morreram na hora, outras ficaram gemendo no asfalto quente. Muitas choravam, pediam por socorro, mas QUEM IA SALVAR ELES? Os médicos tavam, ou mortos, ou machucados, as enfermeiras, o mesmo. Os que estavam vivos olhavam horrorizados à sua volta e viam cádaveres de boca aberta com estacas e lascas das placas enfiados pelo corpo, cabeça, olho,... Uma paisagem exótica, digamos assim.
Aquele barulho surgiu. E o chão começou a tremer. Era familiar. Tudo aquilo era familiar. E ele surgiu. O trem. Veio com tudo. À todo vapor. Atropelou a galera. Matou metade dos que estavam vivos. Daí, vieram as vacas. De novo.
''De novo?!'' - Você me pergunta, revoltado leitor. Pois é. De novo.
Foi aí que todo mundo morreu. Uma viatura da polícia chegou logo em seguida. O policial desceu, olhou, fez cara de nojinho e disse:
- Cara, isso tudo por causa daquela menina?! Se a gente soubesse que ia dar nisso, não tinha mandado o Homem Macaco atrás dela. Vamo bora, me ajuda a limpar essa bagunça toda.
Pois bem, como todos sabem, o trem deveria estar parado naquele dia. Então, como explicar o fato de que ele saiu do nada, atropelando menininhas inocentes por aí? A pessoa que dirigia o trem, não foi vista, até porque, TAVA TODO MUNDO CORRENDO COM MUITO MEDO, NÉ?!
Então, o criminoso fugiu e a polícia não se importou com a morte de Jullya. Era só uma menina qualquer. Por isso, nem sequer fizeram questão de investigar as causas da morte trágica de Jullya. Nem mesmo se importaram em saber quem era o dono da vaca.
(Sabia que eles apreenderam a vaca como ''parte'' do caso e fizeram um churrasco altamente suspeito no domingo seguinte? nãoespalha. :x )
Beleza...tava todo mundo muito triste com a partida de Jullya. Dentro de 3 semanas, todo mundo começou a se revoltar com o descaso dos policiais. Foi aí que aconteceu...
O centro da cidade estava repleto de pessoas carregando placas que diziam ''Jullya vive!", ''Ju estará sempre em nossos corações!", ''Selinho: 1 real'',...dentre muitas outras. Todos os habitantes daquela pacata cidadezinha estavam lá. E quando eu digo TODOS, é TODOS mesmo, com exceção, é claro, dos policiais. Pretendiam fazer uma passeata revolucionária em direção à delegacia para pedir providências ao delegado.
No meio do caminho, do nada, e simplesmente, do nada, surgiram MUITAS vacas. E quando eu digo MUITAS, são MUITAS mesmo! Só Deus sabe de onde saiu tanta vaca. --'
Bem, e elas vieram correndo loucamente pra cima das pessoas, atropelando todas elas.
Muitas morreram na hora, outras ficaram gemendo no asfalto quente. Muitas choravam, pediam por socorro, mas QUEM IA SALVAR ELES? Os médicos tavam, ou mortos, ou machucados, as enfermeiras, o mesmo. Os que estavam vivos olhavam horrorizados à sua volta e viam cádaveres de boca aberta com estacas e lascas das placas enfiados pelo corpo, cabeça, olho,... Uma paisagem exótica, digamos assim.
Aquele barulho surgiu. E o chão começou a tremer. Era familiar. Tudo aquilo era familiar. E ele surgiu. O trem. Veio com tudo. À todo vapor. Atropelou a galera. Matou metade dos que estavam vivos. Daí, vieram as vacas. De novo.
''De novo?!'' - Você me pergunta, revoltado leitor. Pois é. De novo.
Foi aí que todo mundo morreu. Uma viatura da polícia chegou logo em seguida. O policial desceu, olhou, fez cara de nojinho e disse:
- Cara, isso tudo por causa daquela menina?! Se a gente soubesse que ia dar nisso, não tinha mandado o Homem Macaco atrás dela. Vamo bora, me ajuda a limpar essa bagunça toda.
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
trabalho de filosofia.
"Imagine a seguinte situação:
Você mora no primeiro andar de um prédio e sua mãe encontra-se no terraço, aguando as plantas. No estacionamento do prédio, ela avista a vizinha do 5º andar, descendo do carro do ano, tirando as sacolas daquela loja de griffe nova do shopping. É aquela vizinha, que tem o marido que é ''a cara'' do Tom Cruise. Aquela vizinha que recebe um salário 5 vezes maior que o da sua mãe. Aquela vizinha que sempre viaja pra Europa nas férias. Sem pensar duas vezes, sua mãe pega o maior vaso de flores da beirada do terraço e joga friamente na cabeça da vizinha. Ela morre na hora com os cacos do vaso enfiados na sua cabeça. O sangue misturado com terra acabara de arruinar a chapinha dela, finalmente.
Pois bem, no dia seguinte, a polícia bate à sua porta, e tendo sua mãe como principal suspeita, levam em mãos um mandado de prisão. Sua mãe está em casa, escondida, e implorou pra que você não os deixasse entrar.
O que você faria? Deixaria eles levarem sua mãe ou mentiria para os policiais, mesmo sabendo que ela estava errada?"
Trecho retirado do trabalho de filosofia sobre Boa-Fé.
Você mora no primeiro andar de um prédio e sua mãe encontra-se no terraço, aguando as plantas. No estacionamento do prédio, ela avista a vizinha do 5º andar, descendo do carro do ano, tirando as sacolas daquela loja de griffe nova do shopping. É aquela vizinha, que tem o marido que é ''a cara'' do Tom Cruise. Aquela vizinha que recebe um salário 5 vezes maior que o da sua mãe. Aquela vizinha que sempre viaja pra Europa nas férias. Sem pensar duas vezes, sua mãe pega o maior vaso de flores da beirada do terraço e joga friamente na cabeça da vizinha. Ela morre na hora com os cacos do vaso enfiados na sua cabeça. O sangue misturado com terra acabara de arruinar a chapinha dela, finalmente.
Pois bem, no dia seguinte, a polícia bate à sua porta, e tendo sua mãe como principal suspeita, levam em mãos um mandado de prisão. Sua mãe está em casa, escondida, e implorou pra que você não os deixasse entrar.
O que você faria? Deixaria eles levarem sua mãe ou mentiria para os policiais, mesmo sabendo que ela estava errada?"
Trecho retirado do trabalho de filosofia sobre Boa-Fé.
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Argh.
A dor era intensa. Agonizante. Horrenda. Macabra. A dor era inevitável. Não havia como impedi-la: ela vinha todo mês e durava aproximadamente cinco dias.
Engana-se o pobre mortal que pensa que a dor afetava apenas um local. doía nas pernas, na cabeça, nos braços, mas o pico da dor era na barriga. Era latejante, pareciam que as bombas da II Guerra Mundial explodiam dentro dela. Parecia que ela estava parindo o próprio útero, seu filho rejeitado.
Engana-se o pobre mortal que pensa que os remédios resolviam: dorflez, atroveran, feldene, buscopan,...todos em vão. Cházinho também não resolvia. Muito menos uma compressa, fosse ela quente ou fria. Para dormir, a garota só tinha uma solução: agarrar o travesseiro e apertá-lo contra a barriga até cair no sono.
Engana-se o pobre mortal que pensa que algum médico conseguia resolver seu problema. Ela vagava de consultório em consultório, já tinha feito todos os exames possíveis, testado todos os remédios. Não havia nada de errado com ela. Aquilo era uma maldição, um carma, que duraria até seus 40, 50 anos. Mas que infortúnio.
Naquele dia foi demais. Demais para suportar. Ela suava em cima da cama e prendia seus dedos com força no colchão. Não adiantava. Ela gritava, chorava, gemia. Ela virou, agarrou o travesseiro, pressionou contra a barriga e o mordeu com força, abafando seus gritos. Parecia mesmo que ela estava parindo. Mas a dor não a deixava. Ela podia ouvir uma voz maquiavélica sussurando em seu ouvido: "Pode gritar o quanto quiser, isso não irá aliviar seu sofrimento"
Aquilo foi o cúmulo. Ela precisava tomar medidas mais drásticas. Se levantou, cambaleando e foi em direção à cozinha. Abriu a gaveta e puxou o facão que sua mãe usava pra tratar a galinha.
Ela levantou a faca na altura dos olhos. Ela a fitava com um olhar doentio. Cintilava e isso a tornava tão bonita. E também perigosa. Ela virou a ponta da faca pra baixo sorrindo:
- Agora eu venci, SEU ÚTERO FRACASSADO!
E enfiou a faca na barriga. Caiu no chão e começou a sangrar. No seu rosto, um sorriso: finalmente um momento de alívio.
Dedicado à Clara e Dai.
Engana-se o pobre mortal que pensa que a dor afetava apenas um local. doía nas pernas, na cabeça, nos braços, mas o pico da dor era na barriga. Era latejante, pareciam que as bombas da II Guerra Mundial explodiam dentro dela. Parecia que ela estava parindo o próprio útero, seu filho rejeitado.
Engana-se o pobre mortal que pensa que os remédios resolviam: dorflez, atroveran, feldene, buscopan,...todos em vão. Cházinho também não resolvia. Muito menos uma compressa, fosse ela quente ou fria. Para dormir, a garota só tinha uma solução: agarrar o travesseiro e apertá-lo contra a barriga até cair no sono.
Engana-se o pobre mortal que pensa que algum médico conseguia resolver seu problema. Ela vagava de consultório em consultório, já tinha feito todos os exames possíveis, testado todos os remédios. Não havia nada de errado com ela. Aquilo era uma maldição, um carma, que duraria até seus 40, 50 anos. Mas que infortúnio.
Naquele dia foi demais. Demais para suportar. Ela suava em cima da cama e prendia seus dedos com força no colchão. Não adiantava. Ela gritava, chorava, gemia. Ela virou, agarrou o travesseiro, pressionou contra a barriga e o mordeu com força, abafando seus gritos. Parecia mesmo que ela estava parindo. Mas a dor não a deixava. Ela podia ouvir uma voz maquiavélica sussurando em seu ouvido: "Pode gritar o quanto quiser, isso não irá aliviar seu sofrimento"
Aquilo foi o cúmulo. Ela precisava tomar medidas mais drásticas. Se levantou, cambaleando e foi em direção à cozinha. Abriu a gaveta e puxou o facão que sua mãe usava pra tratar a galinha.
Ela levantou a faca na altura dos olhos. Ela a fitava com um olhar doentio. Cintilava e isso a tornava tão bonita. E também perigosa. Ela virou a ponta da faca pra baixo sorrindo:
- Agora eu venci, SEU ÚTERO FRACASSADO!
E enfiou a faca na barriga. Caiu no chão e começou a sangrar. No seu rosto, um sorriso: finalmente um momento de alívio.
Dedicado à Clara e Dai.
sexta-feira, 26 de março de 2010
Hemograma completo.
Ela queria fugir, correr de algum modo, mas ela não conseguia. Aquele lugar lhe deixava tonta, fazendo sua cabeça girar. Suas mãos pálidas suavam frio. Que péssima idéia, não devia ter ido até ali. Não devia ter escutado sua médica.
----------------------------------------
- Bem, é isso, só posso saber qual é o seu problema com um hemograma completo.
- Um o quê?
- Hemograma.
- Desculpa, doutora. Não sei o que é isso.
- Exame de sangue. ¬¬
- Ah, claro. Não! Eu não posso fazer um exame de sangue!
- Por quê?
- Eu tenho pavor de agulhas. Eu caí dentro do cesto de costura da minha mãe, quando era pequena. É um trauma, sabe? Foi difícil de tirar.
- É, eu imagino. Mas não tem outro jeito. Só vou conseguir identificar a sua doença com um exame de sangue.
- Não tem outro jeito?
- Não. ¬¬
- Ai, nossa...
---------------------------------------
Realmente, não devia ter escutado ela. O pânico se instalava por todo seu corpo. Ela estava completamente travada em cima da cadeira. E o cheiro de café piorava a situação. Como aquelas pessoas podiam agir tão naturalmente antes de enfiar uma agulha no braço e arrancar fora parte de seu sangue?
- Valéria Cabral?
- Aqui.
- Me acompanhe por favor?
- (Ai, caramba, é agora, nossa, ai, ai, ...)
Ela se sentou, tremendo. A mulher pediu que ela colocasse o braço no apoio. A mulher era praticamente uma menina, provavelmente não fazia muito tempo que tinha terminado sua graduação. Ela pegou o elástico e amarrou em seu braço. Era um elástico vermelho. Vermelho. Ela passou o algodão embebido em álcool no seu braço. Nossa, que cheiro. Ela deu uns petelecos no seu braço. Caramba, ela não conseguia olhar. Ela ia desmaiar, tinha certeza. A mulher observa o braço.
- Não consigo. Não tô achando. Abre e fecha a mão com força.
Ela abria e fechava, abria e fechava.
- Nada, não consigo, mas eu vou tentar.
- Hãn?
Era tarde demais. Ela já tinha enfiado a agulha sem nem saber onde a veia se encontrava. Dor. Muita dor.
- Calma, eu vou achar, não se preocupe.
Então ela tomou a péssima decisão de olhar pro braço. A menina girava a agulha no seu braço, prendendo a língua entre os dentes, como se aquilo fosse uma tarefa muito difícil de cumprir.
- Deve tá por aqui. Não, não. Mais pro lado. Aqui, eu acho. Nossa, que difícil.
- Mas que diabos você está fazendo, sua doente?!
- Tentando achar sua veia, oras.
- Pára com isso! Tá doendo!!
- Tá bom, tentarei no outro braço.
- Não, você não vai tentar em lugar nenhum!
- Calma, senhora o outro deve ser menos complicado.
- Saia de perto de mim, sua louca! INCOMPETENTE!
- Você me chamou de quê?!
- Incompetente, SIM!
- Ah, agora você vai ver, sua vaca!
Ela pegou a agulha, enfiou no olho da paciente. Ela se debatia. A agulha mexia
conforme o movimento do olho. A mulher abriu a gaveta e pegou mais agulhas. Saiu enfiando em várias partes do corpo de Valéria, que gritava e gritava e gritava. A recém-formada se divertia, ria de uma forma maléfica. As pessoas não escutaram os gritos. Um carro de bolas de sorvete passava na hora. A mulher fugiu.
A secretária encontrou o corpo e chamou sua amiga. Ela olhou e perguntou:
- Desde quando aqui tem acupuntura?
----------------------------------------
- Bem, é isso, só posso saber qual é o seu problema com um hemograma completo.
- Um o quê?
- Hemograma.
- Desculpa, doutora. Não sei o que é isso.
- Exame de sangue. ¬¬
- Ah, claro. Não! Eu não posso fazer um exame de sangue!
- Por quê?
- Eu tenho pavor de agulhas. Eu caí dentro do cesto de costura da minha mãe, quando era pequena. É um trauma, sabe? Foi difícil de tirar.
- É, eu imagino. Mas não tem outro jeito. Só vou conseguir identificar a sua doença com um exame de sangue.
- Não tem outro jeito?
- Não. ¬¬
- Ai, nossa...
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Realmente, não devia ter escutado ela. O pânico se instalava por todo seu corpo. Ela estava completamente travada em cima da cadeira. E o cheiro de café piorava a situação. Como aquelas pessoas podiam agir tão naturalmente antes de enfiar uma agulha no braço e arrancar fora parte de seu sangue?
- Valéria Cabral?
- Aqui.
- Me acompanhe por favor?
- (Ai, caramba, é agora, nossa, ai, ai, ...)
Ela se sentou, tremendo. A mulher pediu que ela colocasse o braço no apoio. A mulher era praticamente uma menina, provavelmente não fazia muito tempo que tinha terminado sua graduação. Ela pegou o elástico e amarrou em seu braço. Era um elástico vermelho. Vermelho. Ela passou o algodão embebido em álcool no seu braço. Nossa, que cheiro. Ela deu uns petelecos no seu braço. Caramba, ela não conseguia olhar. Ela ia desmaiar, tinha certeza. A mulher observa o braço.
- Não consigo. Não tô achando. Abre e fecha a mão com força.
Ela abria e fechava, abria e fechava.
- Nada, não consigo, mas eu vou tentar.
- Hãn?
Era tarde demais. Ela já tinha enfiado a agulha sem nem saber onde a veia se encontrava. Dor. Muita dor.
- Calma, eu vou achar, não se preocupe.
Então ela tomou a péssima decisão de olhar pro braço. A menina girava a agulha no seu braço, prendendo a língua entre os dentes, como se aquilo fosse uma tarefa muito difícil de cumprir.
- Deve tá por aqui. Não, não. Mais pro lado. Aqui, eu acho. Nossa, que difícil.
- Mas que diabos você está fazendo, sua doente?!
- Tentando achar sua veia, oras.
- Pára com isso! Tá doendo!!
- Tá bom, tentarei no outro braço.
- Não, você não vai tentar em lugar nenhum!
- Calma, senhora o outro deve ser menos complicado.
- Saia de perto de mim, sua louca! INCOMPETENTE!
- Você me chamou de quê?!
- Incompetente, SIM!
- Ah, agora você vai ver, sua vaca!
Ela pegou a agulha, enfiou no olho da paciente. Ela se debatia. A agulha mexia
conforme o movimento do olho. A mulher abriu a gaveta e pegou mais agulhas. Saiu enfiando em várias partes do corpo de Valéria, que gritava e gritava e gritava. A recém-formada se divertia, ria de uma forma maléfica. As pessoas não escutaram os gritos. Um carro de bolas de sorvete passava na hora. A mulher fugiu.
A secretária encontrou o corpo e chamou sua amiga. Ela olhou e perguntou:
- Desde quando aqui tem acupuntura?
terça-feira, 23 de março de 2010
jullya vive! (parte 1).
Uma menina tão pura que nem parece nascida nesse lugar.
Assim todos descreviam Jullya, uma alegre menina que vivia seus dias na cidade de Vitória de Santo Antão. Ela tinha muitos amigos e gostava de brincar com eles no jardim da sua casa. Ela gostava de comer cachorro-quente. Gostava de usar um casaquinho branco. Gostava de desenhos animados. Era uma menina muito doce. Praticamente uma Sinhá Moça.
Mas ela tinha medo. Um medo que a fazia se esconder debaixo da mesa, cama, cadeira, ou qualquer outro móvel que pudesse proteger sua cabeça. Tinha pesadelos horrendos durante a noite e chorava, chorava, chorava. Ela tinha medo do Homem Macaco. O Homem Macaco apavorava a menininha desde que ela tinha ouvido sua tia avó contar a lenda do Homem Macaco que corria atrás das pessoas puras e inocentes.
Aconteceu naquele dia. Naquele lindo. Até que...
Jullya caminhava saltitando pelas ruas de sua pacata cidadezinha. Usava um casaquinho branco e carregava um cachorro-quente. Cachorro-quente que estava irritando-a pelo fato de que sempre que ela o mordia, caíam pedaços de carne moída e tomate no seu casaquinho. Oh céus, ela teria que usar Vanish quando chegasse em casa.
Ela estava parada, na calçada, tentando limpar o estrago feito pelo cachorro quente. Quando ela olhou pra trás, deu de cara com ele. Ele. O Homem Macaco. Correndo atrás dela. Ela avistou aquela criatura desprezível e repugnante e começou a gritar e a correr.
Ela gritava: LÁ VEM O HOMEM MACACO CORRENDO ATRÁS DE MIM!
Seu coração batia cada vez mais forte. Bem, se o Homem Macaco não a matasse, ela morreria de taquicardia. Pobrezinha.
Ela gritava: O HOMEM MACACO QUE NÃO TEM ALMA E NEM CORAÇÃO!
As pessoas observavam a cena sem entender o que se passava.
Mas então, surgiu um carro. Que atropelou o Homem Macaco. Ela tropeçou, caiu e olhou pra trás. Rá, tinha se livrado dele. Finalmente. Ela não percebeu, mas tinha caído em cima dos trilhos do trem. Ah, mas isso era irrelevante, afinal, o trem estava parado havia anos.
Do nada, e simplesmente, do nada, apareceu uma vaca. Foi pra cima de Jullya e pisou no seu peito. Acertou seu pulmão. Ficou sem respirar. Todos começaram a correr loucamente. Todos gritavam. Até a vaca saiu correndo.
Era o trem. Ele voltou. Jullya não sabia disso. Ela mal conseguia respirar, como iria se levantar? Ela só conseguiu ouvir aquele ruído que a fazia agonizar. Agonizar. O trem acertou ela em cheio. Já era Jullya.
Não dava pra saber mais o que era cachorro-quente e o que era Jullya.
Assim todos descreviam Jullya, uma alegre menina que vivia seus dias na cidade de Vitória de Santo Antão. Ela tinha muitos amigos e gostava de brincar com eles no jardim da sua casa. Ela gostava de comer cachorro-quente. Gostava de usar um casaquinho branco. Gostava de desenhos animados. Era uma menina muito doce. Praticamente uma Sinhá Moça.
Mas ela tinha medo. Um medo que a fazia se esconder debaixo da mesa, cama, cadeira, ou qualquer outro móvel que pudesse proteger sua cabeça. Tinha pesadelos horrendos durante a noite e chorava, chorava, chorava. Ela tinha medo do Homem Macaco. O Homem Macaco apavorava a menininha desde que ela tinha ouvido sua tia avó contar a lenda do Homem Macaco que corria atrás das pessoas puras e inocentes.
Aconteceu naquele dia. Naquele lindo. Até que...
Jullya caminhava saltitando pelas ruas de sua pacata cidadezinha. Usava um casaquinho branco e carregava um cachorro-quente. Cachorro-quente que estava irritando-a pelo fato de que sempre que ela o mordia, caíam pedaços de carne moída e tomate no seu casaquinho. Oh céus, ela teria que usar Vanish quando chegasse em casa.
Ela estava parada, na calçada, tentando limpar o estrago feito pelo cachorro quente. Quando ela olhou pra trás, deu de cara com ele. Ele. O Homem Macaco. Correndo atrás dela. Ela avistou aquela criatura desprezível e repugnante e começou a gritar e a correr.
Ela gritava: LÁ VEM O HOMEM MACACO CORRENDO ATRÁS DE MIM!
Seu coração batia cada vez mais forte. Bem, se o Homem Macaco não a matasse, ela morreria de taquicardia. Pobrezinha.
Ela gritava: O HOMEM MACACO QUE NÃO TEM ALMA E NEM CORAÇÃO!
As pessoas observavam a cena sem entender o que se passava.
Mas então, surgiu um carro. Que atropelou o Homem Macaco. Ela tropeçou, caiu e olhou pra trás. Rá, tinha se livrado dele. Finalmente. Ela não percebeu, mas tinha caído em cima dos trilhos do trem. Ah, mas isso era irrelevante, afinal, o trem estava parado havia anos.
Do nada, e simplesmente, do nada, apareceu uma vaca. Foi pra cima de Jullya e pisou no seu peito. Acertou seu pulmão. Ficou sem respirar. Todos começaram a correr loucamente. Todos gritavam. Até a vaca saiu correndo.
Era o trem. Ele voltou. Jullya não sabia disso. Ela mal conseguia respirar, como iria se levantar? Ela só conseguiu ouvir aquele ruído que a fazia agonizar. Agonizar. O trem acertou ela em cheio. Já era Jullya.
Não dava pra saber mais o que era cachorro-quente e o que era Jullya.
domingo, 21 de março de 2010
bem-casado.
Tudo começou naquela festa. O brigadeiro olhou através daquela multidão de surpresas-de-uva, empadas, coxinhas e salgadinhos. A visão do seu lado esquerdo não era muito agradável. Dois beijinhos se encontraram, e bem, você imagina o desfecho desse encontro. Foi então que ele a viu. Bela, reluzente, morena cor-de-cal, feita de leite condensado com açúcar grudado em volta do seu corpo: era o doce mais branquinho e mais lindo que já tinha visto em toda sua vida. A doce. O doce. Enfim, você entendeu, o feminino de doce.
Na manhã do dia seguinte, eles oficializaram a sua união. O doce fêmea, cansada de saber que todo brigadeiro era igual, decidiu se casar com o primeiro que aparecesse, pra sorte do nosso protagonista, que teve que extrair todo o granulado de si e rolar no açúcar, por exigência do doce fêmea.
Juntos, entraram no Tupperware como brigadeiro e doce de leite condensado. Saíram de lá como bem-casado.
Foram os dias mais maravilhosos daquele novo bem-casado. Até que começaram as divergências conjugais.
O brigadeiro sempre foi um doce caseiro, gostava de ficar em casa e aturava no máximo, festas com poucas pessoas, só pra familiares e amigos. O doce fêmea, sempre muito "saidinha", curtia festas grandes e não aguentava mais ser regulada pelo brigadeiro, sempre muito controlador e autoritário.
Ela planejava uma separação. Uma separação trágica. Não que ela não tenha tentado se separar de maneira civilizada, de acordo com as leis, seguindo as instruções de um advogado. O brigadeiro não deixou.
---------------------------------------
- Querido, eu não aguento mais, eu tenho que viver a minha vida.
- NÃO, VOCÊ NÃO VAI ME DEIXAR! FOMOS FEITOS UM PARA O OUTRO! SOMOS UM BEM-CASADO!
- Mas por que você não aceita? Eu vi aquela atriz bonitona, a Helena da novela: ela queria sair de casa e deixar o tal do Marcos Garanhão. Por que você não me deixa tentar viver sozinha? Entenda isso: somos melhores separados do que mal-casados!!
- NÃO! EU NÃO QUERO! EU NÃO ACEITO! EU NÃO VOU DEIXAR VOCÊ IR EMBORA!
- Então você não me deixa outra opção!
- O que você vai fazer?!
O doce de leite condensado rastejou com muito esforço até a beira da mesa, deixando o brigadeiro prestes a cair do precipício. Haha, ela sabia que o cachorro viria logo. Haha, pobrezinho.
- Amor, não faz isso não! Vamo conversar!
- Adeus, querido!! - Ela ria de forma maquiavélica.
O pastor alemão veio correndo. A baba escorrendo, pingando no chão. Ele se lambuzava com a visão. Um bem-casado. Em cima da mesa. Tão fácil. Ninguém perceberia. Era só morder e pronto. Ele abriu a boca. Mordeu.
Já era o brigadeiro.
Mas o plano deu errado.
Já era o doce fêmea.
O plano deu muito errado.
Já era o bem-casado.
Na manhã do dia seguinte, eles oficializaram a sua união. O doce fêmea, cansada de saber que todo brigadeiro era igual, decidiu se casar com o primeiro que aparecesse, pra sorte do nosso protagonista, que teve que extrair todo o granulado de si e rolar no açúcar, por exigência do doce fêmea.
Juntos, entraram no Tupperware como brigadeiro e doce de leite condensado. Saíram de lá como bem-casado.
Foram os dias mais maravilhosos daquele novo bem-casado. Até que começaram as divergências conjugais.
O brigadeiro sempre foi um doce caseiro, gostava de ficar em casa e aturava no máximo, festas com poucas pessoas, só pra familiares e amigos. O doce fêmea, sempre muito "saidinha", curtia festas grandes e não aguentava mais ser regulada pelo brigadeiro, sempre muito controlador e autoritário.
Ela planejava uma separação. Uma separação trágica. Não que ela não tenha tentado se separar de maneira civilizada, de acordo com as leis, seguindo as instruções de um advogado. O brigadeiro não deixou.
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- Querido, eu não aguento mais, eu tenho que viver a minha vida.
- NÃO, VOCÊ NÃO VAI ME DEIXAR! FOMOS FEITOS UM PARA O OUTRO! SOMOS UM BEM-CASADO!
- Mas por que você não aceita? Eu vi aquela atriz bonitona, a Helena da novela: ela queria sair de casa e deixar o tal do Marcos Garanhão. Por que você não me deixa tentar viver sozinha? Entenda isso: somos melhores separados do que mal-casados!!
- NÃO! EU NÃO QUERO! EU NÃO ACEITO! EU NÃO VOU DEIXAR VOCÊ IR EMBORA!
- Então você não me deixa outra opção!
- O que você vai fazer?!
O doce de leite condensado rastejou com muito esforço até a beira da mesa, deixando o brigadeiro prestes a cair do precipício. Haha, ela sabia que o cachorro viria logo. Haha, pobrezinho.
- Amor, não faz isso não! Vamo conversar!
- Adeus, querido!! - Ela ria de forma maquiavélica.
O pastor alemão veio correndo. A baba escorrendo, pingando no chão. Ele se lambuzava com a visão. Um bem-casado. Em cima da mesa. Tão fácil. Ninguém perceberia. Era só morder e pronto. Ele abriu a boca. Mordeu.
Já era o brigadeiro.
Mas o plano deu errado.
Já era o doce fêmea.
O plano deu muito errado.
Já era o bem-casado.
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Repente

No alto das montanhas ele pensa e sente, ignora o frio, mesmo estando debaixo de mil mantas em xadrez, ele olha seu café, observa a fumaça passear pela neve sobre o asfalto, se encanta pela forma como só ela consegue vagar tranquilamente naquele lugar tão infernal, tão perto do céu, tão dentro de si.
Estar ali no alto, entre a imensidão branca, é o mesmo que estar perdido em si mesmo, ele pode ouvir o som das flautas, ele pode tocar flautas, mas o som nunca chegará compleatemente a si, passará pelos seus ouvidos sem que ele ouça realmente, a melodia é triste e acolhedora, como um lamento conformado, ela traz rugas e se propõe a esquentar novamente o café, ralha com ele e dá sábios conselhos, fala sobre as verdades da vida e diz que aquilo já deveria ter chegado ao fim, é hora do viajante descer das montanhas e encarar a realidade externa, na qual ele se sente tão perdido.
Não, não... terríveis expectativas o aguardariam lá, pessoas são como neve, elas estão em torno de vocẽ, e ao mesmo tempo parecem estar tão envoltas nelas mesmas que nem sequer ali estão, são sem estar, não são. Pessoas vagam indiferentes ao cenário, ao clima, ao som, tê-las ou não tê-las não faria qualquer diferença naquele vazio, a solidão do viajante é como uma doença sem cura que vai se aprofundando com o tempo e com o frio, ele deseja estar junto mas parece-lhe errado, multidões de neve jamais dariam a ele a companhia necessária.
Naquele caderno estavam frases tão soltas, tão desconexas, as orações mais sinceras.
De repente ele percebeu que aquilo tudo não faria diferença nenhuma. Arrancou todas as páginas, uma a uma, até as que estavam em branco, pois seus pensamentos posteriores eram tão indiferentes a si quanto os anteriores.
Só sobrou uma capa dura de couro.
Ele a depositou na neve e com um ultimo espirro levantou dali para nunca mais voltar.
À 4:56 da manhã do dia seguinte um grupo de pescadores se deparou com a estranha cena: um corpo envolto em sangue e folhas de caderno.
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