quarta-feira, 3 de novembro de 2010

balada, rá.

O lugar estava cheio de gente. Gente pra caramba. Dançando, conversando, bebendo, socializando. Fazia tempo que não saia. Estava naquele relacionamento fazia 5 anos. E levar um chute não é nada bom. Nem um pouco reconfortante. Principalmente quando você foi chifrada. E tem a leve impressão que existe MESMO um par de chifres na sua cabeça e todos olham pra você com expressão de compadecimento. Ah vá.

Por conta disso tudo, ela pintou o cabelo, se valorizou, entrou na academia, malhou, malhou. Aproveitou e resolveu dar uma olhadinha naquela loja de griffe nova ao lado da academia. Ela deu de cara com ele. Não com o ex. Com aquele vestido que...que...parecia que tinha sido feito pra ela.

Não pensou duas vezes. Nem sequer olhou a etiqueta. O preço não importava agora. Abriu a bolsa, pegou o cartão. Não dividiu, foi à vista. Só pra poder dizer para as amigas: ''Foi à vista.''

Era um sábado especial. Passou a manhã no SPA, se valorizando. Foi pro salão,e lá fez as unhas. Pintou de vermelho luxúria e deu uma chapinha PODEROSA que nem gofo de bebê derruba.

Chegou em casa e afundou na banheira. Porque existe todo um processo de preparação para uma balada pós-chifre, sabe? Bem, espero que não saiba como é isso...
Botou o vestido, colocou uma tonelada de maquiagem na cara, tomou um banho de perfume francês, olhou pro espelho e fez cara de poderosa.

''É hoje. Que eu saio dessa fossa crise pós-chifre. Vou encontrar um cara lindo e rico que vai me valorizar e me fazer feliz. (: ''

(Aham...vai nessa...)

O lugar estava cheio de gente. Gente pra caramba. Dançando, conversando, bebendo, socializando. Fazia tempo que não saia. Mas ela sabia o que fazer. Chegar, quietinha, como quem não quer nada, sentar no banquinho, lá no balcão, pedir um drinque e fazer cara de ''pode vir que vou fazer seu tempo valer a pena''. Foi assim que conseguiu o outro. Vai ser fácil.

Mas não foi fácil. Ninguém chegava, ninguém investia, ninguém se interessava. Ela começou a desanimar. Resolveu tomar mais uma. E outra. Mais umazinha, só pra não ficar sem fazer nada. E outra, só pra fechar.

É, ela tomou muitas. E resolveu se levantar pra ir ao banheiro. Passando no meio da pista de dança, ela avistou ele. Não o ex. Mas ''O Cara''. Ele era lindo. Lindo demais pra ser verdade. O tipo de cara alto, dos olhos castanhos, cabelos negros e perfeitamente e incrivelmente lisos, e com um sorriso...nossa! E olha só, que coisa! Tava desacompanhado, dançando sozinho com um drinque na mão.

Ela, seguindo o ritmo da música, foi dançando na direção dele, que achou o comportamento dela no mínimo, estranho. Parecia mais uma dança do acasalamento. Aparentemente, ela perdeu o jeito no quesito ''conquista''.

Mas, enfim...deixando se levar pela música, os dois foram se aproximando, dançando. Ela usava um salto-agulha e estava sob pleno efeito da bebida: totalmente desequilibrada. Mas isso não a abalava, ela tinha que conquistar aquele cara, senão ia continuar na fossa crise pós-chifre. Ela olhava fundo nos olhos claros do rapaz, que sorria, divertindo-se com toda aquela situação inusitada. Ela dançava ao som da música. Ela dublava e sorria. Ele retribuia.

Ela não viu a pocinha. Alguém tinha acabado de vomitar ali. Nem ele viu aquilo. Ela escorregou. Bateu no garçom, que caiu. Ela caiu também. Ficou por cima de todo aquele vômito e coberta de cacos de vidro dos copos quebrados da bandeja que o garçom segurava. Sem rastro de sangue, pelo menos. Mas foi bem nojento. Ela começou a rir descontroladamente. Ele ria enquanto a ajudava a se levantar.

Ela estava suja, mas estava perto dele. Agora, muito próxima. Tão próxima que podia beijá-lo ali mesmo. Mas ela estava coberta de vômito. Eles ficaram se encarando no meio da pista, sem dizer nada, mas eles sabiam, sentiam aquilo: foram feitos um para o outro.

A bola de espelhos acima deles rangia ao girar. Todos olhavam pra cima, menos eles, encantados um com o outro. A bola de espelhos fez um barulho horrendo e despencou, esmagando o casal. Estavam atrofiados, perfurados por milhares de cacos de espelhos, abraçados.

Ao menos morreram abraçados. E sorrindo.

A morte chega na hora errada de vez em quando.

Jullya vive! (Parte 2)

A morte da menininha do casaquinho branco causou comoção geral na cidade de Vitória de Santo Antão, e nas suas redondezas. Ela era muito querida por todos os habitantes, principalmente pelo vendedor de cachorro-quente. Sem falar nos adoradores de desenho animado. E naquelas pessoas que gostavam de caminhar com Jullya no meio do mato. Eu sei, é um hábito, no mínimo estranho. Vai entender...

Pois bem, como todos sabem, o trem deveria estar parado naquele dia. Então, como explicar o fato de que ele saiu do nada, atropelando menininhas inocentes por aí? A pessoa que dirigia o trem, não foi vista, até porque, TAVA TODO MUNDO CORRENDO COM MUITO MEDO, NÉ?!

Então, o criminoso fugiu e a polícia não se importou com a morte de Jullya. Era só uma menina qualquer. Por isso, nem sequer fizeram questão de investigar as causas da morte trágica de Jullya. Nem mesmo se importaram em saber quem era o dono da vaca.

(Sabia que eles apreenderam a vaca como ''parte'' do caso e fizeram um churrasco altamente suspeito no domingo seguinte? nãoespalha. :x )

Beleza...tava todo mundo muito triste com a partida de Jullya. Dentro de 3 semanas, todo mundo começou a se revoltar com o descaso dos policiais. Foi aí que aconteceu...
O centro da cidade estava repleto de pessoas carregando placas que diziam ''Jullya vive!", ''Ju estará sempre em nossos corações!", ''Selinho: 1 real'',...dentre muitas outras. Todos os habitantes daquela pacata cidadezinha estavam lá. E quando eu digo TODOS, é TODOS mesmo, com exceção, é claro, dos policiais. Pretendiam fazer uma passeata revolucionária em direção à delegacia para pedir providências ao delegado.

No meio do caminho, do nada, e simplesmente, do nada, surgiram MUITAS vacas. E quando eu digo MUITAS, são MUITAS mesmo! Só Deus sabe de onde saiu tanta vaca. --'
Bem, e elas vieram correndo loucamente pra cima das pessoas, atropelando todas elas.

Muitas morreram na hora, outras ficaram gemendo no asfalto quente. Muitas choravam, pediam por socorro, mas QUEM IA SALVAR ELES? Os médicos tavam, ou mortos, ou machucados, as enfermeiras, o mesmo. Os que estavam vivos olhavam horrorizados à sua volta e viam cádaveres de boca aberta com estacas e lascas das placas enfiados pelo corpo, cabeça, olho,... Uma paisagem exótica, digamos assim.

Aquele barulho surgiu. E o chão começou a tremer. Era familiar. Tudo aquilo era familiar. E ele surgiu. O trem. Veio com tudo. À todo vapor. Atropelou a galera. Matou metade dos que estavam vivos. Daí, vieram as vacas. De novo.

''De novo?!'' - Você me pergunta, revoltado leitor. Pois é. De novo.

Foi aí que todo mundo morreu. Uma viatura da polícia chegou logo em seguida. O policial desceu, olhou, fez cara de nojinho e disse:

- Cara, isso tudo por causa daquela menina?! Se a gente soubesse que ia dar nisso, não tinha mandado o Homem Macaco atrás dela. Vamo bora, me ajuda a limpar essa bagunça toda.