Ela queria fugir, correr de algum modo, mas ela não conseguia. Aquele lugar lhe deixava tonta, fazendo sua cabeça girar. Suas mãos pálidas suavam frio. Que péssima idéia, não devia ter ido até ali. Não devia ter escutado sua médica.
----------------------------------------
- Bem, é isso, só posso saber qual é o seu problema com um hemograma completo.
- Um o quê?
- Hemograma.
- Desculpa, doutora. Não sei o que é isso.
- Exame de sangue. ¬¬
- Ah, claro. Não! Eu não posso fazer um exame de sangue!
- Por quê?
- Eu tenho pavor de agulhas. Eu caí dentro do cesto de costura da minha mãe, quando era pequena. É um trauma, sabe? Foi difícil de tirar.
- É, eu imagino. Mas não tem outro jeito. Só vou conseguir identificar a sua doença com um exame de sangue.
- Não tem outro jeito?
- Não. ¬¬
- Ai, nossa...
---------------------------------------
Realmente, não devia ter escutado ela. O pânico se instalava por todo seu corpo. Ela estava completamente travada em cima da cadeira. E o cheiro de café piorava a situação. Como aquelas pessoas podiam agir tão naturalmente antes de enfiar uma agulha no braço e arrancar fora parte de seu sangue?
- Valéria Cabral?
- Aqui.
- Me acompanhe por favor?
- (Ai, caramba, é agora, nossa, ai, ai, ...)
Ela se sentou, tremendo. A mulher pediu que ela colocasse o braço no apoio. A mulher era praticamente uma menina, provavelmente não fazia muito tempo que tinha terminado sua graduação. Ela pegou o elástico e amarrou em seu braço. Era um elástico vermelho. Vermelho. Ela passou o algodão embebido em álcool no seu braço. Nossa, que cheiro. Ela deu uns petelecos no seu braço. Caramba, ela não conseguia olhar. Ela ia desmaiar, tinha certeza. A mulher observa o braço.
- Não consigo. Não tô achando. Abre e fecha a mão com força.
Ela abria e fechava, abria e fechava.
- Nada, não consigo, mas eu vou tentar.
- Hãn?
Era tarde demais. Ela já tinha enfiado a agulha sem nem saber onde a veia se encontrava. Dor. Muita dor.
- Calma, eu vou achar, não se preocupe.
Então ela tomou a péssima decisão de olhar pro braço. A menina girava a agulha no seu braço, prendendo a língua entre os dentes, como se aquilo fosse uma tarefa muito difícil de cumprir.
- Deve tá por aqui. Não, não. Mais pro lado. Aqui, eu acho. Nossa, que difícil.
- Mas que diabos você está fazendo, sua doente?!
- Tentando achar sua veia, oras.
- Pára com isso! Tá doendo!!
- Tá bom, tentarei no outro braço.
- Não, você não vai tentar em lugar nenhum!
- Calma, senhora o outro deve ser menos complicado.
- Saia de perto de mim, sua louca! INCOMPETENTE!
- Você me chamou de quê?!
- Incompetente, SIM!
- Ah, agora você vai ver, sua vaca!
Ela pegou a agulha, enfiou no olho da paciente. Ela se debatia. A agulha mexia
conforme o movimento do olho. A mulher abriu a gaveta e pegou mais agulhas. Saiu enfiando em várias partes do corpo de Valéria, que gritava e gritava e gritava. A recém-formada se divertia, ria de uma forma maléfica. As pessoas não escutaram os gritos. Um carro de bolas de sorvete passava na hora. A mulher fugiu.
A secretária encontrou o corpo e chamou sua amiga. Ela olhou e perguntou:
- Desde quando aqui tem acupuntura?
sexta-feira, 26 de março de 2010
terça-feira, 23 de março de 2010
jullya vive! (parte 1).
Uma menina tão pura que nem parece nascida nesse lugar.
Assim todos descreviam Jullya, uma alegre menina que vivia seus dias na cidade de Vitória de Santo Antão. Ela tinha muitos amigos e gostava de brincar com eles no jardim da sua casa. Ela gostava de comer cachorro-quente. Gostava de usar um casaquinho branco. Gostava de desenhos animados. Era uma menina muito doce. Praticamente uma Sinhá Moça.
Mas ela tinha medo. Um medo que a fazia se esconder debaixo da mesa, cama, cadeira, ou qualquer outro móvel que pudesse proteger sua cabeça. Tinha pesadelos horrendos durante a noite e chorava, chorava, chorava. Ela tinha medo do Homem Macaco. O Homem Macaco apavorava a menininha desde que ela tinha ouvido sua tia avó contar a lenda do Homem Macaco que corria atrás das pessoas puras e inocentes.
Aconteceu naquele dia. Naquele lindo. Até que...
Jullya caminhava saltitando pelas ruas de sua pacata cidadezinha. Usava um casaquinho branco e carregava um cachorro-quente. Cachorro-quente que estava irritando-a pelo fato de que sempre que ela o mordia, caíam pedaços de carne moída e tomate no seu casaquinho. Oh céus, ela teria que usar Vanish quando chegasse em casa.
Ela estava parada, na calçada, tentando limpar o estrago feito pelo cachorro quente. Quando ela olhou pra trás, deu de cara com ele. Ele. O Homem Macaco. Correndo atrás dela. Ela avistou aquela criatura desprezível e repugnante e começou a gritar e a correr.
Ela gritava: LÁ VEM O HOMEM MACACO CORRENDO ATRÁS DE MIM!
Seu coração batia cada vez mais forte. Bem, se o Homem Macaco não a matasse, ela morreria de taquicardia. Pobrezinha.
Ela gritava: O HOMEM MACACO QUE NÃO TEM ALMA E NEM CORAÇÃO!
As pessoas observavam a cena sem entender o que se passava.
Mas então, surgiu um carro. Que atropelou o Homem Macaco. Ela tropeçou, caiu e olhou pra trás. Rá, tinha se livrado dele. Finalmente. Ela não percebeu, mas tinha caído em cima dos trilhos do trem. Ah, mas isso era irrelevante, afinal, o trem estava parado havia anos.
Do nada, e simplesmente, do nada, apareceu uma vaca. Foi pra cima de Jullya e pisou no seu peito. Acertou seu pulmão. Ficou sem respirar. Todos começaram a correr loucamente. Todos gritavam. Até a vaca saiu correndo.
Era o trem. Ele voltou. Jullya não sabia disso. Ela mal conseguia respirar, como iria se levantar? Ela só conseguiu ouvir aquele ruído que a fazia agonizar. Agonizar. O trem acertou ela em cheio. Já era Jullya.
Não dava pra saber mais o que era cachorro-quente e o que era Jullya.
Assim todos descreviam Jullya, uma alegre menina que vivia seus dias na cidade de Vitória de Santo Antão. Ela tinha muitos amigos e gostava de brincar com eles no jardim da sua casa. Ela gostava de comer cachorro-quente. Gostava de usar um casaquinho branco. Gostava de desenhos animados. Era uma menina muito doce. Praticamente uma Sinhá Moça.
Mas ela tinha medo. Um medo que a fazia se esconder debaixo da mesa, cama, cadeira, ou qualquer outro móvel que pudesse proteger sua cabeça. Tinha pesadelos horrendos durante a noite e chorava, chorava, chorava. Ela tinha medo do Homem Macaco. O Homem Macaco apavorava a menininha desde que ela tinha ouvido sua tia avó contar a lenda do Homem Macaco que corria atrás das pessoas puras e inocentes.
Aconteceu naquele dia. Naquele lindo. Até que...
Jullya caminhava saltitando pelas ruas de sua pacata cidadezinha. Usava um casaquinho branco e carregava um cachorro-quente. Cachorro-quente que estava irritando-a pelo fato de que sempre que ela o mordia, caíam pedaços de carne moída e tomate no seu casaquinho. Oh céus, ela teria que usar Vanish quando chegasse em casa.
Ela estava parada, na calçada, tentando limpar o estrago feito pelo cachorro quente. Quando ela olhou pra trás, deu de cara com ele. Ele. O Homem Macaco. Correndo atrás dela. Ela avistou aquela criatura desprezível e repugnante e começou a gritar e a correr.
Ela gritava: LÁ VEM O HOMEM MACACO CORRENDO ATRÁS DE MIM!
Seu coração batia cada vez mais forte. Bem, se o Homem Macaco não a matasse, ela morreria de taquicardia. Pobrezinha.
Ela gritava: O HOMEM MACACO QUE NÃO TEM ALMA E NEM CORAÇÃO!
As pessoas observavam a cena sem entender o que se passava.
Mas então, surgiu um carro. Que atropelou o Homem Macaco. Ela tropeçou, caiu e olhou pra trás. Rá, tinha se livrado dele. Finalmente. Ela não percebeu, mas tinha caído em cima dos trilhos do trem. Ah, mas isso era irrelevante, afinal, o trem estava parado havia anos.
Do nada, e simplesmente, do nada, apareceu uma vaca. Foi pra cima de Jullya e pisou no seu peito. Acertou seu pulmão. Ficou sem respirar. Todos começaram a correr loucamente. Todos gritavam. Até a vaca saiu correndo.
Era o trem. Ele voltou. Jullya não sabia disso. Ela mal conseguia respirar, como iria se levantar? Ela só conseguiu ouvir aquele ruído que a fazia agonizar. Agonizar. O trem acertou ela em cheio. Já era Jullya.
Não dava pra saber mais o que era cachorro-quente e o que era Jullya.
domingo, 21 de março de 2010
bem-casado.
Tudo começou naquela festa. O brigadeiro olhou através daquela multidão de surpresas-de-uva, empadas, coxinhas e salgadinhos. A visão do seu lado esquerdo não era muito agradável. Dois beijinhos se encontraram, e bem, você imagina o desfecho desse encontro. Foi então que ele a viu. Bela, reluzente, morena cor-de-cal, feita de leite condensado com açúcar grudado em volta do seu corpo: era o doce mais branquinho e mais lindo que já tinha visto em toda sua vida. A doce. O doce. Enfim, você entendeu, o feminino de doce.
Na manhã do dia seguinte, eles oficializaram a sua união. O doce fêmea, cansada de saber que todo brigadeiro era igual, decidiu se casar com o primeiro que aparecesse, pra sorte do nosso protagonista, que teve que extrair todo o granulado de si e rolar no açúcar, por exigência do doce fêmea.
Juntos, entraram no Tupperware como brigadeiro e doce de leite condensado. Saíram de lá como bem-casado.
Foram os dias mais maravilhosos daquele novo bem-casado. Até que começaram as divergências conjugais.
O brigadeiro sempre foi um doce caseiro, gostava de ficar em casa e aturava no máximo, festas com poucas pessoas, só pra familiares e amigos. O doce fêmea, sempre muito "saidinha", curtia festas grandes e não aguentava mais ser regulada pelo brigadeiro, sempre muito controlador e autoritário.
Ela planejava uma separação. Uma separação trágica. Não que ela não tenha tentado se separar de maneira civilizada, de acordo com as leis, seguindo as instruções de um advogado. O brigadeiro não deixou.
---------------------------------------
- Querido, eu não aguento mais, eu tenho que viver a minha vida.
- NÃO, VOCÊ NÃO VAI ME DEIXAR! FOMOS FEITOS UM PARA O OUTRO! SOMOS UM BEM-CASADO!
- Mas por que você não aceita? Eu vi aquela atriz bonitona, a Helena da novela: ela queria sair de casa e deixar o tal do Marcos Garanhão. Por que você não me deixa tentar viver sozinha? Entenda isso: somos melhores separados do que mal-casados!!
- NÃO! EU NÃO QUERO! EU NÃO ACEITO! EU NÃO VOU DEIXAR VOCÊ IR EMBORA!
- Então você não me deixa outra opção!
- O que você vai fazer?!
O doce de leite condensado rastejou com muito esforço até a beira da mesa, deixando o brigadeiro prestes a cair do precipício. Haha, ela sabia que o cachorro viria logo. Haha, pobrezinho.
- Amor, não faz isso não! Vamo conversar!
- Adeus, querido!! - Ela ria de forma maquiavélica.
O pastor alemão veio correndo. A baba escorrendo, pingando no chão. Ele se lambuzava com a visão. Um bem-casado. Em cima da mesa. Tão fácil. Ninguém perceberia. Era só morder e pronto. Ele abriu a boca. Mordeu.
Já era o brigadeiro.
Mas o plano deu errado.
Já era o doce fêmea.
O plano deu muito errado.
Já era o bem-casado.
Na manhã do dia seguinte, eles oficializaram a sua união. O doce fêmea, cansada de saber que todo brigadeiro era igual, decidiu se casar com o primeiro que aparecesse, pra sorte do nosso protagonista, que teve que extrair todo o granulado de si e rolar no açúcar, por exigência do doce fêmea.
Juntos, entraram no Tupperware como brigadeiro e doce de leite condensado. Saíram de lá como bem-casado.
Foram os dias mais maravilhosos daquele novo bem-casado. Até que começaram as divergências conjugais.
O brigadeiro sempre foi um doce caseiro, gostava de ficar em casa e aturava no máximo, festas com poucas pessoas, só pra familiares e amigos. O doce fêmea, sempre muito "saidinha", curtia festas grandes e não aguentava mais ser regulada pelo brigadeiro, sempre muito controlador e autoritário.
Ela planejava uma separação. Uma separação trágica. Não que ela não tenha tentado se separar de maneira civilizada, de acordo com as leis, seguindo as instruções de um advogado. O brigadeiro não deixou.
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- Querido, eu não aguento mais, eu tenho que viver a minha vida.
- NÃO, VOCÊ NÃO VAI ME DEIXAR! FOMOS FEITOS UM PARA O OUTRO! SOMOS UM BEM-CASADO!
- Mas por que você não aceita? Eu vi aquela atriz bonitona, a Helena da novela: ela queria sair de casa e deixar o tal do Marcos Garanhão. Por que você não me deixa tentar viver sozinha? Entenda isso: somos melhores separados do que mal-casados!!
- NÃO! EU NÃO QUERO! EU NÃO ACEITO! EU NÃO VOU DEIXAR VOCÊ IR EMBORA!
- Então você não me deixa outra opção!
- O que você vai fazer?!
O doce de leite condensado rastejou com muito esforço até a beira da mesa, deixando o brigadeiro prestes a cair do precipício. Haha, ela sabia que o cachorro viria logo. Haha, pobrezinho.
- Amor, não faz isso não! Vamo conversar!
- Adeus, querido!! - Ela ria de forma maquiavélica.
O pastor alemão veio correndo. A baba escorrendo, pingando no chão. Ele se lambuzava com a visão. Um bem-casado. Em cima da mesa. Tão fácil. Ninguém perceberia. Era só morder e pronto. Ele abriu a boca. Mordeu.
Já era o brigadeiro.
Mas o plano deu errado.
Já era o doce fêmea.
O plano deu muito errado.
Já era o bem-casado.
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