terça-feira, 17 de novembro de 2009

Um disco de 1972

Ela poderia passar uma eternidade só vendo o movimento dos seus cachos escuros, pequenas molas que teimavam em não achar posição certa, pulavam para todos os lados, em movimentos curtos, assim como o seu comprimento, embora que fossem bem cheias e parecessem maiores por isso.
Ela amava passar horas sentindo o cheiro de baunilha daqueles cachos, bagunça-los ainda mais do que já eram, observar todos os contornos e variações que eram possíveis ali.
Por isso era assim que passavam as tardes, sentados na varanda da casa dele, ouvindo um blues de fundo, enquanto ela se sentava sobre as almofadas, sua saia comprida se espalhava pelo chão e a sua sandália rasteira marrom formava uma bela imagem repousada ao lado dos livros e discos amotoados sobre o chão de madeira da sala. Ele deitava a cabeça no colo dela, o que fazia seus cachos se misturarem com a chita da saia, enquanto dois olhos brilhavam em comunhão com sorrisos frequentes e bocas que não paravam de se mover, conversavam sempre, sobre qualquer coisa, tudo parecia digno de horas de diálogo só para que os dois pudessem exercer tal necessidade juntos.
Ele com seus olhos castanhos e camisa xadrez ficava sempre encatado com tudo o que havia nela, seus movimentos, sua forma de andar, seus gestos enquanto falava, o jeito como ela sentia uma música por inteiro, como se o som estivesse preenchendo a sua alma completamente, seus assuntos, seus argumentos niilistas, seus livros preferidos, suas citações, enfim... era um encanto só, ele a contemplava sempre como quem a vê pela primeira vez.
Ela não conseguia imaginar como pudera viver de outra forma antes dele, amava todas as confusões que haviam em sua cabeça, todas as questões que ninguém jamais imaginaria propor, seu modo de falar da vida como um mal particularmente desnecessário, as vezes, diversas vezes, em que ele sentava ao seu lado com o violão, e começava a cantar baixinho em seu ouvido "eu não neeego, eu me entrego, você é meu graaande amooor, e 'agora' eu vou dizer: eu te amo", ela se sentia meio boba por ser assim, tão sucetível ao amor, mas gostava disso, por que lhe proporcionava uma felicidade sem igual e uma sensação de estar completa.
Ele olhou para aquela confusão de discos espalhados com uma expressão confusa, tinha certeza absoluta: havia separado o vinil amarelado "Construção", deixara o disco já na vitrola, só esperando ser tocado pela agulha...
É, de fato o vinil fora separado, e por ele mesmo, durante seu breve cochilo na aula de teoria da alguma coisa, que aula era aquela mesmo?
Bom, agora só que restava era bagunça, bagunça e amotoado, não que isso fosse algo realmente importante.
Ela levantou e foi ajudá-lo, os dois se confundiram com os vários quadros, tratados dessa forma pois costumavam pensar em capas de vinis como quadros. Foram risos, caretas, imitações baratas do que havia nos quadros, enfim, desistiram, a agulha tocou os aneis de um disco do Lô Borges, cuja capa não dava para imitar pois se tratava de um par de tênis mum fundo azul, meio cinza.
"Você fica bem melhor assim
Até o fim da semana que entra"
Ele a puxou delicadamente pela cintura num abraço, ela enterrou o rosto em sua camisa xadrez, brincando com os cachos que caiam brevemente sobre a nuca.
Então, ele começou a se movimentar em passos frequentes de um lado para o outro, ela achou hilário, pois os dois eram seres completamente desajeitados e sem senso de equilíbrio, mas sentiu vontade de continuar ainda assim, era bom ficar ali com ele, melhor que qualquer outra coisa que ela pudesse lembrar naquele momento.
Os dois dançavam ao som da guitarra sutil de Lô Borges, não sentiram necessidade de falar, os dois estavam em sintonia perfeita, não era possível haver troca naquele momento.
E como já era de se esperar, ele deixou cair um livro da escrivaninha e logo depois tropeçou nele, numa sequência que quase os levou a cair em cima da mesa de vidro... quase.
Quando conseguiu desviar, ele acabou pisando na capa do disco que estavam ouvindo, a capa acabou escorregando para a varanda e os dois se desequilibraram no batente.
Ela estava achando tudo muito engraçado, toda a cena desastrada dele, e sua determinação em dançar, então não se opôs quando ele a puxou novamente para si, sinalizando que a dança estava apenas começando.
Porém, ao puxá-la, ele estava empolgado, e assim nessa empolgação, acabou usando força demais.
Ela que se deixou levar como pena, atravessou violentamente o vidro da janela, estrilhaçando-o em mil pedaços banhados de sangue.
Do oitavo andar se via um corpo deformado no cimento.
Ele agora estava só.

Aline


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Ps.: Não esqueça de olhar para trás enquanto faz isso.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

É sexta-feira 13, galera.

Na famosa franquia cinematográfica de horror dos anos 1980, a sexta-feira 13 é o pior dia.



É quando acontecem as mortes, as vinganças de Jason Voorhees -que morreu afogado num lago quando menino- ou de sua mãe. Mas não só os frequentadores da colônia de Crystal Lake têm medo do dia. Na vida real, há quem não saia de casa, quem deixe de trabalhar ou mesmo quem desenvolva uma fobia ao número. Em 2009, aliás, três sextas-feiras caem no dia 13.



A idéia de que a sexta-feira 13 dá azar mistura duas superstições: a do número 13 e a da sexta-feira. Para os católicos, 13 eram os apóstolos da Última Ceia -e o 13º era Judas, que, de acordo com o Evangelho, traiu Jesus. Sexta-feira foi o dia da crucificação de Cristo, e há teólogos que afirmam que o Dilúvio começou numa sexta-feira.



A partir daí, muitos fiéis começaram a cancelar planos de viagem ou projetos no penúltimo dia da semana. Marinheiros também temiam viajar na sexta.



Segundo uma reportagem da revista "National Geographic" sobre o tema, na Roma antiga, as bruxas se juntavam em grupos de 12 -pois o décimo-terceiro era o demônio.

www.g1.com.br


Vocês acreditam nela?

Chupa-cabra.

Naquela região, interior do estado, as pessoas cresciam ouvindo histórias do chupa-cabra. Uma vez ou outra, ocorriam relatos de casos ocorridos em áreas próximas à mata. Então o boato se espalhava pela cidade inteira, até que, 2 ou 3 meses depois, quando ninguém mais lembrava ou comentava sobre o caso, o chupa-cabra atacava novamente.

Ivanha sempre morou na capital e nunca acreditava nas histórias que lhe contavam. Desde criança, nunca acreditou em Papai Noel, Coelhinho da Páscoa,... Ela sempre encontrava os presentes e ovos de páscoa escondidos no quarto dos pais.

Depois que se mudou para a cidade de Carnaíba, no sertão, ela começou a se perturbar com as histórias de chupa-cabra que chegavam aos seus ouvidos. Se mudou para lá porque, quando adolescente, prometera pros seus pais que cuidaria deles até a morte em sua cidade de origem. Que destino.

Era irritante ver como aquele povo se iludia com aquilo. É óbvio que o chupa-cabra não existe. Não há provas científicas suficientes.

Certo dia, Ivanha saiu com seus pais idosos para a casa de Rouziane que é filha de Margareth que é cunhada de Roberval que é primo de terceiro grau de Willyton que é irmão de Vesúvia que é casada com Heleno que é sogro de Hayane que é prima de quarto grau por parte de mãe de Ivanha.

Lá, eles almoçaram numa tranqüila reunião de família com comidas típicas da região. Os tópicos da conversa iam desde ao casamento de Lucinda até a morte misteriosa do vizinho. Obviamente, tocaram no assunto “chupa-cabra”.

Comentaram o quanto a morte foi estranha: o corpo do vizinho foi encontrado em estado de decomposição no meio das suas plantações, com marcas de mordidas e arranhões. Ninguém sentiu falta dele durante 6 meses. Ele morava sozinho e ninguém fazia amizade com ele por causa de sua fama de velho rabugento.

O dia foi longo e seus pais precisavam dormir. Como eles tinham prometido que dormiriam lá, assim aconteceu. Às 18h seus pais já tinham caído duros na cama. Não, calma, eles não morreram. Ainda.

Ela conversou um pouco mais com seus familiares e foi se deitar. O dia foi bastante cansativo e ela precisava dormir. No meio da noite, por volta das 2h da manhã, ela acordou com um grito agudo. Se levantou, de pijama, caminhou até a sala e viu a porta aberta. Foi para o terraço onde observou todo aquele mato com uma estrada de barro passando no meio, paralela à casa.

Um grito semelhante ao primeiro surgiu, pairando no ar, só que dessa vez, mas longo e mais agudo. Vinha da plantação que ficava atrás da casa. Ela caminhou até entrar no meio do matagal, procurando encontrar o tal alguém que tanto gritava.

Até que ela tropeçou em alguma coisa. Ok, era uma pessoa. A provável dona dos gritos. Era Lucinda, com o rosto desfigurado, marcas de unhas grandes e pontiagudas em seu rosto. O sangue escorrendo por todo o seu corpo, ultrapassando os rasgos na roupa feitos pelas unhas. Seu rosto expressava uma dor insuportável.

Ivanha se desesperou. Pensou em gritar, mas se gritasse, a criatura que tinha feito aquilo voltaria para aniquilá-la também, considerando que não estaria muito longe do local. Ela correu, afastando as folhas com os braços, que se cortavam com facilidade. Mas ela havia entrado muito na escuridão, já não sabia onde era o começo ou o fim do matagal. Ela parou por um instante, respirou e olhou pra trás. O mato se mexia fervorosamente. Ela entrou em pânico e continuou a correr. Não olhou pra trás, mas sentia que a criatura se aproximava.

Ouviu os passos. Sentiu as unhas se cravando em suas costas. Sentiu a queda junto ao chão barrento. As mordidas em seus braços imobilizados. Os puxões que arrancavam tufos do seu cabelo. E uma coisa pontiaguda penetrando a sua garganta.

Chupa-cabra não existe, né?

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

10 coisas para fazer antes de morrer

1 - Pegar a melhor amiga da irmã/o melhor amigo do irmão
2 - Assaltar um banco
3 - Botar fogo no colégio/faculdade
4 - Largar os estudos
5 - Matar o presidente
6 - Estabelecer uma ditadura
7 - Matar a galera do morro
8 - Torturar os cafetões e pegar as prostitutas
9 - Soltar uma bomba atômica nos EUA
10 - O último fica a seu critério

São só sugestões, ninguém precisa fazer isso ;)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Amizade.

Marcela e Cristina eram grande amigas. Mas brigavam constantemente. Brigavam por tudo, mas os meninos eram o maior motivo de sua discórdia. Sempre que aparecia um menino bonito, rico e fofo, elas discutiam e bolavam planos diabólicos até que o menino se assustasse e saisse correndo - literalmente.

Era assim desde o jardim-de-infância: quando marcela arrumava um namorado, Cristina furava o olho dela; quando Cristina arrumava um namorado, Marcela furava o olho dela. Mas ao fim de toda confusão, elas se acertavam e riam das idiotices feitas - que muitas vezes paravam no hospital.

E então surgiu um novato na turma delas. Era o menino mais fofo que já tinham visto: alto, peso razoável, cabelo liso castanho-dourado, da mesma cor do olhos. Era dono de um sorriso encantador.

Elas o acompanhavam com o olhar até que ele se sentou numa cadeira entre as duas. O encanto se foi até que uma encontrou o olhar da outra. Ele olhou para as duas com um sorriso no rosto, mas não foi o suficiente para quebrar os olhares gelados. Então ele se conteve e deduziu que era melhor não interferir e ficar longe delas.

Passados alguns meses, entre braços quebrados e dentes arrancados - elas adoravam um barraco na saída da escola - elas resolveram fazer um "teste de eficiência": quem ganhasse ficava com o menino. Ele fazia o máximo possível para agradar as duas e tentar segurar as brigas. Não era suficiente. Por causa de uma dessas tentativas ele quase foi atropelado.

O teste foi pensado pelas duas:

- Cristina, eu tive uma idéia perfeita pro teste.

- Diz.

- A gente corre pelo corredor do colégio em direção a escada, descemos e quem chegar primeiro e passar a mão na bunda dele, ganha.

- Tem que ser na bunda? Isso vai assustar ele.

- Como se ele já não estivesse assustado. Tudo bem, pode ser na mão.

- Marcela, tem certeza que é a melhor forma de fazer isso?

- Claro.

Mas Marcela tinha segundas intenções com aquele teste. Cristina nunca foi dotada de muita capacidade mental e depois que fez alguns tratamentos capilares e aplicou tintas no cabelo, ficou pior. Muitos defendem a idéia de que a tinta entrou pelo couro cabeludo e queimou os neurônios.

O dia do teste chegou. Os alunos seguravam cartazes e gritavam pelas meninas. O caminho era simples, correr e descer a escada. O menino não conseguiu deixar de recusar o convite, era isso ou as duas se matavam. E ele não duvidava da ameaça.

Se posicionaram e a ruiva da sala ao lado apitou. Começaram a correr e estavam empatadas. Passando pela turma do 1º ano B, Cristina acelera e lidera a corrida. Perto da escada, Marcela se aproxima e Cristina corre mais. Marcela ultrapassa e Cristina fica pra trás. Na hora de descer o primeiro degrau, Marcela pára e estica a perna. Cristina tropeça e cai de cabeça escada abaixo. Rola, rola, rola até parar no pés do menino fofo. Sua cabeça sangrava com um corte profundo. Quebrou o pescoço também e todos olhavam para a menina morta que morreu por causa do seu amor. Ou por causa de um objeto de desejo. Ninguém sabia ao certo. Marcela desce as escadas lentamente. Se abaixa e fala no ouvido do cádaver:

- Desculpe, querida, não foi nada pessoal.

O menino olha assustado para Marcela. Ela o encara e pensa.

Finalmente essa fracassada saiu do meu caminho. Agora ele é todo meu. Só meu.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Atraso.

Pobre homem. Tinha que correr. Muito.

Tinha sido assaltado, não restara nada na carteira. Documentos, dinheiro, carro, relógio e celular se foram.

O dia começara ótimo. Acordou com 1h de atraso, não tomou banho, não escovou os dentes, só trocou de roupa e lavou o rosto. Desceu as escadas correndo até que uma senhora idosa cruzou o seu caminho. Ela começou a gritar. Ele não sabia o motivo. Aí ele percebeu que ela olhava para suas pernas. Ele estava de samba-canção. Droga, esqueceu a calça. Subiu e pôs uma calça. Quase que esquecia o cinto.

Entrou no seu Corolla preto e saiu correndo pela rua quase deserta. Parou no sinal e um homem surgiu com uma arma encostada no vidro. Levou tudo e deixou o homem no meio da rua. Ele tinha que chegar no trabalho. Tinha uma reunião importante que decidiria se ele merecia uma promoção. Tinha que chegar a tempo.

Agora ele corria. Desesperadamente. Não tinha noção de hora, mas a posição indicava que seriam prováveis 10:35h. Ele já estava atrasado, muito atrasado. Então ele decidiu que não esperaria o sinal fechar e tentou atravessar a Avenida Beira Rio correndo. Idiota. Fracassado. Imbecil.

Conseguiu desviar de um carro e duas motos. Mas então, um Ecosport vermelho pegou ele em cheio. Seu corpo deu piruetas no ar e quando todos achavam que ele terminaria seu vôo acima do carro, veio um Rio Doce CDU em alta velocidade. O impacto com o vidro foi forte. Mas não forte o suficiente para quebrá-lo. Os passageiros não entendiam o que se passava e por que parecia que uma ave de tamanho tão desproporcional esbarrasse no vidro. Uma ave extremamente desfigurada. Mas não era uma ave. O motorista tinha que tirar o corpo dali ou bateria o ônibus condenando a vida de todos. Ligou o limpador de pára-brisas para soltar o cádaver preso e esparramado no vidro dianteiro do ônibus.

O corpo se soltou. Mas de um modo estranho, não foi encontrado. Apenas algumas horas depois do expediente, descobriram que o corpo se prendera nas ferragens do ônibus.

Bem, pode-se dizer que aquilo não era mais um corpo.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O desconhecido.

Era uma mistura de odores e sensações. Tudo que conseguia ver era uma névoa que atrapalhava sua visão. Um homem desconhecido surge, veste um sobre-tudo branco, sapatos brancos, luvas brancas, um chapéu de cowboy branco e uma máscara igual ao do Jason. Ele a seguia em passos lentos. Mesmo correndo, parecia que a qualquer momento ele a alcançaria. Ele era com certeza muito perigoso.

Acordou com o rosto molhado, arfando. Se dirigiu ao banheiro, lavou o rosto e se olhou no espelho. Sua expressão estava distorcida, cansada. Não conseguiu mais dormir.

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O dia fora bastante cansativo. Voltava pra casa por volta das 19:26 depois de pegar dois ônibus, um metrô e um moto-táxi. Quem mandou morar em fim de mundo? O interior era pacato, mas chegar até lá era uma verdadeira batalha de resistência. Fazia aquele mesmo trajeto todo dia, de duas a três vezes. A idade ia avançando e suas pernas já não aguentavam tanto esforço.

Caminhava pela estrada de barro mal iluminada. Eram 3 quilômetros até a sua casa. Os moto-taxitas não se arriscavam, paravam em um ponto e ela seguia sozinha dali. Raramente aparecia uma carona ou outra. Já tinha se acostumado com a escuridão e com o medo que tomava o seu peito, enchendo-a de angústia.

Mas essa noite era diferente. A rua parecia mais escura, sombria, assustadora. Ela tinha uma sensação estranha, macabra, uma intuição de que algo ruim está prestes acontecer.

Então, um carro negro surge pelas suas costas, levantando poeira e cegando-a por uns instantes. O carro pára mais a frente, um sujeito desce e fecha a porta. O carro volta de ré, retornando ao seu ponto de origem. A areia invade seus globos oculares, ela pisca numa tentativa inútil de voltar a enxergar.

Depois de um tempo, não vendo claramente o que se encontra a sua volta, ela o vê parado ali, a poucos metros.

Era ele, ela sabia, com certeza era ele, sem sombra de dúvida. Um homem que veste um sobre-tudo branco, sapatos brancos. , luvas brancas, um chapéu de cowboy branco e uma máscara igual ao do Jason. Igual ao estranho que aparecia em seu sonho e a atormentava todas as noites. A névoa não deixava enxergá-lo com total clareza, mas era ele. Mas havia algo de diferente nele. Ele tinha uma faca atravessada em sua cabeça, uma faca que entrava pela sua têmpora direita e não saía pela esquerda.

Começou a caminhar lentamente em sua direção. Ela tinha que correr, mas suas pernas a prendiam ao chão diante da visão aterrorizante que ela tinha. Ele pegou no cabo da faca que o atravessava e a puxou vagarosamente. Não era uma faca. Aquilo era grande demais para ser uma faca. Era uma espada de mais de 1 metro de comprimento. Como era possível aquilo?

Ele continuava sua caminhada e ela conseguiu correr. Corria pra salvar sua própria vida. Um homem estranho de máscara com uma espada na mão não deveria ter boas intenções. Seus pulmões se enchiam de terra, ela tossia e corria, tossia e corria, desesperadamente. Era inútil, suas pernas estavam exaustas e trêmulas. Ele iria alcançá-la em pouco tempo, era óbvio.

Mas aí veio pedra. A pedra que ela não vira por causa do desespero e medo. A pedra que a fez tropeçar. A pedra que a fez cair. A pedra que a derrubou no chão. A pedra que a fez quebrar o nariz. A pedra que a fez cuspir sangue.

Ela, deitada no chão, virou-se para encarar seu provável assassino. Ele a observava de forma estranha. Olhava com olhos ternos por trás da máscara. Olhava como uma mãe olha seu filho ao nascer. Ele estendeu a mão para que ela se levantasse. Ela aceitou a ajuda e conseguiu se reerguer. Não antes do homem dar-lhe uma rasteira e derrubar-lhe novamente no chão. Ela caiu com os olhos esbugalhados que expressavam todo o seu medo e sua vontade de acabar logo com aquilo.

Ele deu uma grossa gargalhada aterrorizante e enfiou a espada no meio da sua molhada testa de suor.

* Essa história é origem de um trauma de infância da autora + a imaginação fértil de uma leitora.

sábado, 7 de novembro de 2009

Cena de filme - Premonição 3




É um pouco longo, mas vale a pena.



Desculpem, não achei legendado :/

funny death (: - parte 2




sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Cena de filme - Navio Fantasma




Navio Fantasma - estãos todos felizes, dançando e de repente... assistam pra ver o que vem a seguir. A cena acima foi sugerida por uma leitora.

Fairy tale.

Once upon a time, in a land far away, a beautiful, independent, self-confident princess met a frog as she sat contemplating ecological issues on the shores of an unpolluted lake in a verdant plain near her castle.

The frog hopped into the Princess' lap and said: "Elegant Lady, I was once a handsome Prince, until an evil witch cast a spell upon me."

"One kiss from you, however, and I will turn back into the handsome, young Prince that I am and then, my sweet, we can marry and set up a home in my castle with my mother, where you can prepare my meals, clean my clothes, take care of my children, and forever feel grateful and happy doing so."

That night, eating dessert after fried frog legs seasoned in a white wine and onion cream sauce, she laughed to herself and thought:

I don't think so.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Massacration - Evil Papagali



E para os deficientes em inglês, a tradução:


Eu conheci um pássaro
Que veio do inferno
Ele é um pouco verde
Ele está muito bem

Ele gosta de brincar
Ele gosta do leite
Ele gosta de lutar
Ele gosta de matar

Eu conheci um pássaro
Que veio do inferno
Ele é pouco verde
Ele está muito bem

Ele não pode voar
E ele está revoltado
Ele não gosta de mim
Então ele disse O quê?

(Refrão)

Lôro
Lôro quer biscoito!

Papagaio do mal
Ele quer matar
Ele me mandou
Para puta que pariu

Papagaio do mal
Ele é animal
Ele tem o poder
Do heavy metal

Ele tem o poder
Da "furation"
Você sente a dor
É a "bication"

Ele é o mestre do inferno
E nós somos Massacration
Ele quer falar
Para toda a nação


(Refrão)

Currupaco sinta o fogo
Currupaco sinta
Currupaco mate com poder
Currupaco mate

Traição (?)

Sexta-feira - 17:17

Era inacreditável. Todos esse anos namorando com ele e agora isso. 8 anos jogados fora. Ela segurava o celular com força. Suas mão tremiam mais que máquina de lavar quebrada. O ódio era visível em seus olhos. As mensagens, que eram muitas, as ligações incontáveis. Mas que homem audacioso. 8 anos escondendo a outra. 8 anos passando as tardes com ela e as noites com a outra. Não havia dúvidas, a prova estava ali, nas suas mãos.

Rá, mas ela teria sua vingança. Ela teria sim

Sexta-feira - 21:50

- Isso são horas de chegar?

- Amor, eu disse que ia me atrassar. Nem pude ligar. E parece que eu esqueci meu celular aqui.

Notava como ela segurava o telefone de uma maneira estranha, como se segurasse uma granada, prestes a puxar o pino.

- Ele descarregou?

- Sim, mas a bateria durou tempo suficiente pra que eu descobrisse toda a sua farsa.

- Que farsa?

- A outra.

- Que outra?

- Carlos Eduardo, pare com isso. Você deixe de ser cara-de-pau comigo, ou eu quebro a tua cara!

- Mas o que foi que eu fiz?

- As mensagens, as ligações,... Como pôde fazer isso comigo, Carlos Eduardo?! Oito anos da minha vida desperdiçados com as suas mentiras!

- Amor, me deixa explicar! Você não tá entendendo.

- Não me chame de amor. Quem é a bruaca?

- Er...

- Não, espere! Não quero saber, já sei o nome dela, não precisa me contar todas as suas aventuras amorosas com ela...

- Mas...

- Mas nada, Carlos Eduardo, não quero saber!

Carlos Eduardo se aproxima de Juliana, que chora descontroladamente. Ele pega-a nos braços.

- Afaste-se de mim, seu canalha!

- Mas...

- AFASTE-SE DE MIM AGORA!

Ela puxou um canivete da gaveta da mobília velha que fedia a xixi de gato. Ela soluçava, suas mãos agitadas seguravam o canivete com força, como se pudesse partir este ao meio.

- Por favor, me deixa explicar!

- Não, se você der mais um passo eu juro que eu...

- Vai fazer o quê?

- Eu faço isso!

E enfiou o canivete no peito de Carlos Eduardo.

Domingo - 15:00

A chuva cai e molha as criaturas que seguem pelo cemitério vestidas de preto. Juliana fora inocentada por estar com TPM. Mesmo tendo matado seu amor, foi ao enterro. Todos olhavam-na com ódio, desprezo, nojo. Ela esquecera que o nome da sua sogra era o mesmo da suposta amante de Carlos Eduardo. E que ele prometera que ligaria para a mãe sempre depois que se mudasse. E prometera que a veria sempre que possível, todas as noites. Sua mãe não perdera o costume de chamá-lo de "bebê", "querido", "amorzinho",... Ela também gostava de fazer surpresas para seu filho em suas visitas.

Juliana sofria com seu remorso desde que descobrira que matara seu namorado por engano.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Parquinho - Fiddy

Uma menininha fascinada
Por bolinhas de sabão
Tão pequenininha imaginava
Que o papai olhava
Enquanto ia comprar o seu balão

Ela não sabia que no parque
Não podia ficar só
O vendedor de pirulito
Um sujeito esquisito
Não tem dó

Ô menininhá,
Tão bonitinha do cabelo esquisito
Ficou sozinhá,
Então agora vai chupar meu pirulito

O piruliteiro levou ela pro banheiro, sem pudor
A criancinha se esguelava o tempo inteiro, um berreiro
que horror
E o pai dela logo entrou em desespero quando a viu no
lá no banheiro
Que tamanha danação
A menina devorando o cidadão, arrancando os pedaços e curtindo de montão

Eggs.





Meu querido Pitbull.

A mudança já estava quase pronta. Jennyfer atingiu a maioridade, passou em medicina e agora saía da casa de seus pais. Há semanas eles se entristeciam com o passar dos dias. Há semanas ela ansiava cada vez mais aquele momento.

Tirou a carteira de motorista e comprou um carro com o dinheiro da poupança. Ainda não podia ser considerada uma pessoa segura no volante, mas arriscaria carregar a mudança sozinha. Ia morar com Medéia num apartamento nos arredores da universidade.

Juntou suas bugigangas e deixou outras. Não queria levar muita tralha. Mas havia uma coisa que ela fazia questão de levar: o pitbull. Mesmo estando velho, ele fizera companhia à ela durante toda a sua infância. Corridas no meio da rua, lambidas no rosto ao chegar em casa.
Eles até dormiam juntos, nos dias em que Jimmy não fedia tanto.Quando iam para o interior, corriam entre as vacas, pisando nos seus restos fisiológicos. Foi uma infância feliz e bem vivida.

Até que Jimmy adoeceu. Ele não comia mais, não corria, não brincava, não lambia. Ficou cego, surdo e tecnicamente mudo. Era óbvio que sua morte estava próxima. Jimmy era um cachorro - que mesmo tendo uma idade avançada - de grande porte, brincalhão, que babava demais. Mas ela o amava. Não poderia deixá-lo sob os descuidados cuidados de seus pais. Isso poderia agravar sua - já precária - saúde.

Chegado o grande dia, seus pais a aguardavam na porta. O pai tentava transpassar uma expressão de "não me importo". Enquanto a mãe segurava um lencinho, aos prantos, soluçando. Não havia motivo pra tanto drama. Ela moraria a apenas 3 quarteirões dali.
As malas já estavam no carro e Medéia estava sentada no banco do carona, com Jimmy no colo, que não tinha mais condições de viajar sem apoio físico e emocional.

Terminadas as despedidas, Jennyfer entra no carro e corre o mais rápido possível com o seu Gol prata de placa DIE-0666. No meio do trajeto, Jimmy apresenta ataques epiléticos com falta de ar.

- AAAAH, O QUE EU FAÇO?!

- Abre a janela! Bota a cabeça dele pra fora! Rápido!!

Poucos segundos depois da ação, Jimmy volta ao seu estado de saúde instável estável. Jennyfer se preocupa.

- Medéia, ele já é idoso, fecha a janela, o ar pode fazer mal.

- Tá, ninguém quer que aconteça uma tragédia, certo?

- Certo.

Mas Medéia apertou o botão antes de tirar a cabeça de Jimmy. A janela subia e pressionava o pescoço do pitbull, que voltara a latir. Eram latidos agudos, latidos de agonia que clamavam por socorro. Medéia, desesperada, só apertava o botão pro lado errado, o que só aumentava a dor do cão idoso.

- AAAH, E AGORA? ELE TÁ SUFOCANDO!!

- PUXA A CABEÇA DELE, MEDÉIA, PUXA!

- ARGH, NÃO CONSIGO, TÁ PRENDENDO COM MUITA FORÇA!!

Jennyfer entra em pânico e começa a tentar ajudar Medéia. O carro sai descontrolado pela avenida. Jennyfer puxa o cachorro pela coleira, ao mesmo tempo que puxa o volante pra direita. O carro vai em direção à calçada. Mas Jennyfer não viu o poste.

Só viu a cabeça de Jimmy voando por causa do impacto com o poste e o sangue espirrando em seu rosto. Gritos ensurdecedores saem de dentro do carro, que continua descontrolado, chocando-se com inúmeros veículos que transitavam calmamente na avenida. O carro se aproximava de um cruzamento, Jennyfer não conseguia manter o controle sobre o carro. Então ele bate num caminhão em sua perpendicular.

Ninguém quer que aconteça uma tragédia, certo?

domingo, 1 de novembro de 2009

Parada de ônibus.

Por mais que corresse, ela sabia, não ia chegar a tempo.Atrasada, não podia perder aquele ônibus. Seu emprego estava em risco. Sua vida estava em risco. Sem emprego consequentemente ficaria sem dinheiro, sem casa, sem vida. Morando debaixo da ponte na Rua da Amargura, barraco número 13. Estava em plena rodovia e o ônibus corria muito rápido. Ela chegou na parada e o ônibus, que já havia ultrapassado esta, ia em direção ao norte a toda velocidade.

O motorista estava impaciente, o freio continuava falhando e ele precisava sair o mais rápido possível do expediente. Queria chegar cedo em casa pra pegar a mulher com a "boca na botija". Há muito tempo ele vinha desconfiando dela, com certeza já era corno. Corno de muitos chifres. As pessoas notam, comentam, e ele percebe o movimento.

Respirando intensamente, sem fôlego, pernas bambas, ela xingava o motorista mentalmente. Passa a mão na testa, limpa o suor. Respira fundo e joga a bolsa em cima do banco. Já era. Emprego, dinheiro, vida. Como ia se sustentar agora? Não podia voltar pra casa de seus pais. Havia brigado feio com eles anos atrás, quando saiu de casa aos berros com uma mochila na mão, piercing no umbigo e uma tatuagem nas costas. Depois disso, tomou juízo, passou numa faculdade pública, ficou na casa do estudante e arrumou um emprego decente.

Mais a frente, o ônibus perde o controle. Aquele freio de viado. O ônibus cai barranco abaixo, adentra o rio e explode.

Ela, estupefata, pula de felicidade, chorando, pensando em como tinha sorte. Perdeu o emprego, mas nasceu de novo. Quase morreu. Estaria queimando nas chamas ardentes se tivesse pego aquele ônibus. Se não tivesse parado pra escovar os dentes e passar fio dental, teria morrido. Carbonizada.

Uma buzina se instala por seus ouvidos. Vinha do sul. Assim que ela se virou, viu um caminhão descontrolado subindo o acostamento na sua direção. Não deu tempo de correr. Acertou a pobrezinha em cheio. Seu corpo voou e caiu dentro do rio. O corpo ficou irreconhecível, mas a polícia considerou-a como vítima do acidente de ônibus, que voou janela afora. Não mudaria muita coisa.