Por mais que corresse, ela sabia, não ia chegar a tempo.Atrasada, não podia perder aquele ônibus. Seu emprego estava em risco. Sua vida estava em risco. Sem emprego consequentemente ficaria sem dinheiro, sem casa, sem vida. Morando debaixo da ponte na Rua da Amargura, barraco número 13. Estava em plena rodovia e o ônibus corria muito rápido. Ela chegou na parada e o ônibus, que já havia ultrapassado esta, ia em direção ao norte a toda velocidade.
O motorista estava impaciente, o freio continuava falhando e ele precisava sair o mais rápido possível do expediente. Queria chegar cedo em casa pra pegar a mulher com a "boca na botija". Há muito tempo ele vinha desconfiando dela, com certeza já era corno. Corno de muitos chifres. As pessoas notam, comentam, e ele percebe o movimento.
Respirando intensamente, sem fôlego, pernas bambas, ela xingava o motorista mentalmente. Passa a mão na testa, limpa o suor. Respira fundo e joga a bolsa em cima do banco. Já era. Emprego, dinheiro, vida. Como ia se sustentar agora? Não podia voltar pra casa de seus pais. Havia brigado feio com eles anos atrás, quando saiu de casa aos berros com uma mochila na mão, piercing no umbigo e uma tatuagem nas costas. Depois disso, tomou juízo, passou numa faculdade pública, ficou na casa do estudante e arrumou um emprego decente.
Mais a frente, o ônibus perde o controle. Aquele freio de viado. O ônibus cai barranco abaixo, adentra o rio e explode.
Ela, estupefata, pula de felicidade, chorando, pensando em como tinha sorte. Perdeu o emprego, mas nasceu de novo. Quase morreu. Estaria queimando nas chamas ardentes se tivesse pego aquele ônibus. Se não tivesse parado pra escovar os dentes e passar fio dental, teria morrido. Carbonizada.
Uma buzina se instala por seus ouvidos. Vinha do sul. Assim que ela se virou, viu um caminhão descontrolado subindo o acostamento na sua direção. Não deu tempo de correr. Acertou a pobrezinha em cheio. Seu corpo voou e caiu dentro do rio. O corpo ficou irreconhecível, mas a polícia considerou-a como vítima do acidente de ônibus, que voou janela afora. Não mudaria muita coisa.
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Um comentário:
E O KINO FAZ MAIS UMA VÍTIMA.
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