O lugar estava cheio de gente. Gente pra caramba. Dançando, conversando, bebendo, socializando. Fazia tempo que não saia. Estava naquele relacionamento fazia 5 anos. E levar um chute não é nada bom. Nem um pouco reconfortante. Principalmente quando você foi chifrada. E tem a leve impressão que existe MESMO um par de chifres na sua cabeça e todos olham pra você com expressão de compadecimento. Ah vá.
Por conta disso tudo, ela pintou o cabelo, se valorizou, entrou na academia, malhou, malhou. Aproveitou e resolveu dar uma olhadinha naquela loja de griffe nova ao lado da academia. Ela deu de cara com ele. Não com o ex. Com aquele vestido que...que...parecia que tinha sido feito pra ela.
Não pensou duas vezes. Nem sequer olhou a etiqueta. O preço não importava agora. Abriu a bolsa, pegou o cartão. Não dividiu, foi à vista. Só pra poder dizer para as amigas: ''Foi à vista.''
Era um sábado especial. Passou a manhã no SPA, se valorizando. Foi pro salão,e lá fez as unhas. Pintou de vermelho luxúria e deu uma chapinha PODEROSA que nem gofo de bebê derruba.
Chegou em casa e afundou na banheira. Porque existe todo um processo de preparação para uma balada pós-chifre, sabe? Bem, espero que não saiba como é isso...
Botou o vestido, colocou uma tonelada de maquiagem na cara, tomou um banho de perfume francês, olhou pro espelho e fez cara de poderosa.
''É hoje. Que eu saio dessa fossa crise pós-chifre. Vou encontrar um cara lindo e rico que vai me valorizar e me fazer feliz. (: ''
(Aham...vai nessa...)
O lugar estava cheio de gente. Gente pra caramba. Dançando, conversando, bebendo, socializando. Fazia tempo que não saia. Mas ela sabia o que fazer. Chegar, quietinha, como quem não quer nada, sentar no banquinho, lá no balcão, pedir um drinque e fazer cara de ''pode vir que vou fazer seu tempo valer a pena''. Foi assim que conseguiu o outro. Vai ser fácil.
Mas não foi fácil. Ninguém chegava, ninguém investia, ninguém se interessava. Ela começou a desanimar. Resolveu tomar mais uma. E outra. Mais umazinha, só pra não ficar sem fazer nada. E outra, só pra fechar.
É, ela tomou muitas. E resolveu se levantar pra ir ao banheiro. Passando no meio da pista de dança, ela avistou ele. Não o ex. Mas ''O Cara''. Ele era lindo. Lindo demais pra ser verdade. O tipo de cara alto, dos olhos castanhos, cabelos negros e perfeitamente e incrivelmente lisos, e com um sorriso...nossa! E olha só, que coisa! Tava desacompanhado, dançando sozinho com um drinque na mão.
Ela, seguindo o ritmo da música, foi dançando na direção dele, que achou o comportamento dela no mínimo, estranho. Parecia mais uma dança do acasalamento. Aparentemente, ela perdeu o jeito no quesito ''conquista''.
Mas, enfim...deixando se levar pela música, os dois foram se aproximando, dançando. Ela usava um salto-agulha e estava sob pleno efeito da bebida: totalmente desequilibrada. Mas isso não a abalava, ela tinha que conquistar aquele cara, senão ia continuar na fossa crise pós-chifre. Ela olhava fundo nos olhos claros do rapaz, que sorria, divertindo-se com toda aquela situação inusitada. Ela dançava ao som da música. Ela dublava e sorria. Ele retribuia.
Ela não viu a pocinha. Alguém tinha acabado de vomitar ali. Nem ele viu aquilo. Ela escorregou. Bateu no garçom, que caiu. Ela caiu também. Ficou por cima de todo aquele vômito e coberta de cacos de vidro dos copos quebrados da bandeja que o garçom segurava. Sem rastro de sangue, pelo menos. Mas foi bem nojento. Ela começou a rir descontroladamente. Ele ria enquanto a ajudava a se levantar.
Ela estava suja, mas estava perto dele. Agora, muito próxima. Tão próxima que podia beijá-lo ali mesmo. Mas ela estava coberta de vômito. Eles ficaram se encarando no meio da pista, sem dizer nada, mas eles sabiam, sentiam aquilo: foram feitos um para o outro.
A bola de espelhos acima deles rangia ao girar. Todos olhavam pra cima, menos eles, encantados um com o outro. A bola de espelhos fez um barulho horrendo e despencou, esmagando o casal. Estavam atrofiados, perfurados por milhares de cacos de espelhos, abraçados.
Ao menos morreram abraçados. E sorrindo.
A morte chega na hora errada de vez em quando.
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