terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Repente


No alto das montanhas ele pensa e sente, ignora o frio, mesmo estando debaixo de mil mantas em xadrez, ele olha seu café, observa a fumaça passear pela neve sobre o asfalto, se encanta pela forma como só ela consegue vagar tranquilamente naquele lugar tão infernal, tão perto do céu, tão dentro de si.
Estar ali no alto, entre a imensidão branca, é o mesmo que estar perdido em si mesmo, ele pode ouvir o som das flautas, ele pode tocar flautas, mas o som nunca chegará compleatemente a si, passará pelos seus ouvidos sem que ele ouça realmente, a melodia é triste e acolhedora, como um lamento conformado, ela traz rugas e se propõe a esquentar novamente o café, ralha com ele e dá sábios conselhos, fala sobre as verdades da vida e diz que aquilo já deveria ter chegado ao fim, é hora do viajante descer das montanhas e encarar a realidade externa, na qual ele se sente tão perdido.
Não, não... terríveis expectativas o aguardariam lá, pessoas são como neve, elas estão em torno de vocẽ, e ao mesmo tempo parecem estar tão envoltas nelas mesmas que nem sequer ali estão, são sem estar, não são. Pessoas vagam indiferentes ao cenário, ao clima, ao som, tê-las ou não tê-las não faria qualquer diferença naquele vazio, a solidão do viajante é como uma doença sem cura que vai se aprofundando com o tempo e com o frio, ele deseja estar junto mas parece-lhe errado, multidões de neve jamais dariam a ele a companhia necessária.
Naquele caderno estavam frases tão soltas, tão desconexas, as orações mais sinceras.
De repente ele percebeu que aquilo tudo não faria diferença nenhuma. Arrancou todas as páginas, uma a uma, até as que estavam em branco, pois seus pensamentos posteriores eram tão indiferentes a si quanto os anteriores.
Só sobrou uma capa dura de couro.
Ele a depositou na neve e com um ultimo espirro levantou dali para nunca mais voltar.
À 4:56 da manhã do dia seguinte um grupo de pescadores se deparou com a estranha cena: um corpo envolto em sangue e folhas de caderno.

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