Na sala de espera, o cidadão folheia uma revista mofada. Como aquele lugar fedia... A secretária atende o telefone e chama pelo nome no cidadão.
Entrando na sala de pouca luz, alivia-se por respirar melhor lá dentro. Na mesa central, uma placa se destacava com as letras pintadas em branco que diziam: "Dr. José Cotoca".
Um homem que aparenta ter um pouco mais de 40 anos faz um gesto para que o cidadão se encaminhe ao sofá de couro preto. O cidadão se deita enquanto o homem pega seu bloco de anotações e se senta numa poltrona aparentemente velha.
- Então, senhor... Melquisedeque da Silva, fale-me sobre sua infância.
Era notável que uma lágrima se formava em seu olho direito.
- Errr... Bem, tudo começou quando minha mãe botou meu nome... Ela ficou em dúvida sobre qual nome botar. Assim, ela abriu a Bíblia em uma página qualquer e se deparou com Melquisedeque. É claro que isso marcou a minha infância. Como meu nome era complicado e longo demais, as pessoas passaram a me chamar de Melqui.
- Como você se sente sobre isso?
- Eu chorava todas as noites. Nome de viado da porra. Acabou com a minha vida.
- Sei...entendo. E como foi a sua adolescência?
- Ah, doutor! Não podia ter sido diferente, foi minha fase de rebeldia. Cortava o cabelo com navalha, mudei de nome, saía com os meninos do morro, enchia a cara, fumava, traficava,...
- Qual era seu nome novo?
- Gustavo, mas as pessoas se referiam a mim como "O Navalha''.
- Ah, por causa do cabelo?
- Não, porque meus assaltos à mão armada eram feitos com navalha. Ou a pessoa passava tudo ou ganhava um corte profundo na jugular. Matei 23 desse jeito. Eu tentava se pacífico, sabe, doutor? Mas ninguém me compreendia.
- Hum... E como você largou essa vida?
- Minha mãe mandou meus 14 irmãos me amarrarem na cama. Ela era católica devota. Chamou um padre pra me exorcisar. Depois de 13 sessões, eu comecei a sentir uma paz no coração, uma luz divina caindo sobre mim, me purificando, tomando cada extremidade do meu corpo. Então eu passei a frequentar a Igreja.
To be continued...
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