terça-feira, 17 de novembro de 2009

Um disco de 1972

Ela poderia passar uma eternidade só vendo o movimento dos seus cachos escuros, pequenas molas que teimavam em não achar posição certa, pulavam para todos os lados, em movimentos curtos, assim como o seu comprimento, embora que fossem bem cheias e parecessem maiores por isso.
Ela amava passar horas sentindo o cheiro de baunilha daqueles cachos, bagunça-los ainda mais do que já eram, observar todos os contornos e variações que eram possíveis ali.
Por isso era assim que passavam as tardes, sentados na varanda da casa dele, ouvindo um blues de fundo, enquanto ela se sentava sobre as almofadas, sua saia comprida se espalhava pelo chão e a sua sandália rasteira marrom formava uma bela imagem repousada ao lado dos livros e discos amotoados sobre o chão de madeira da sala. Ele deitava a cabeça no colo dela, o que fazia seus cachos se misturarem com a chita da saia, enquanto dois olhos brilhavam em comunhão com sorrisos frequentes e bocas que não paravam de se mover, conversavam sempre, sobre qualquer coisa, tudo parecia digno de horas de diálogo só para que os dois pudessem exercer tal necessidade juntos.
Ele com seus olhos castanhos e camisa xadrez ficava sempre encatado com tudo o que havia nela, seus movimentos, sua forma de andar, seus gestos enquanto falava, o jeito como ela sentia uma música por inteiro, como se o som estivesse preenchendo a sua alma completamente, seus assuntos, seus argumentos niilistas, seus livros preferidos, suas citações, enfim... era um encanto só, ele a contemplava sempre como quem a vê pela primeira vez.
Ela não conseguia imaginar como pudera viver de outra forma antes dele, amava todas as confusões que haviam em sua cabeça, todas as questões que ninguém jamais imaginaria propor, seu modo de falar da vida como um mal particularmente desnecessário, as vezes, diversas vezes, em que ele sentava ao seu lado com o violão, e começava a cantar baixinho em seu ouvido "eu não neeego, eu me entrego, você é meu graaande amooor, e 'agora' eu vou dizer: eu te amo", ela se sentia meio boba por ser assim, tão sucetível ao amor, mas gostava disso, por que lhe proporcionava uma felicidade sem igual e uma sensação de estar completa.
Ele olhou para aquela confusão de discos espalhados com uma expressão confusa, tinha certeza absoluta: havia separado o vinil amarelado "Construção", deixara o disco já na vitrola, só esperando ser tocado pela agulha...
É, de fato o vinil fora separado, e por ele mesmo, durante seu breve cochilo na aula de teoria da alguma coisa, que aula era aquela mesmo?
Bom, agora só que restava era bagunça, bagunça e amotoado, não que isso fosse algo realmente importante.
Ela levantou e foi ajudá-lo, os dois se confundiram com os vários quadros, tratados dessa forma pois costumavam pensar em capas de vinis como quadros. Foram risos, caretas, imitações baratas do que havia nos quadros, enfim, desistiram, a agulha tocou os aneis de um disco do Lô Borges, cuja capa não dava para imitar pois se tratava de um par de tênis mum fundo azul, meio cinza.
"Você fica bem melhor assim
Até o fim da semana que entra"
Ele a puxou delicadamente pela cintura num abraço, ela enterrou o rosto em sua camisa xadrez, brincando com os cachos que caiam brevemente sobre a nuca.
Então, ele começou a se movimentar em passos frequentes de um lado para o outro, ela achou hilário, pois os dois eram seres completamente desajeitados e sem senso de equilíbrio, mas sentiu vontade de continuar ainda assim, era bom ficar ali com ele, melhor que qualquer outra coisa que ela pudesse lembrar naquele momento.
Os dois dançavam ao som da guitarra sutil de Lô Borges, não sentiram necessidade de falar, os dois estavam em sintonia perfeita, não era possível haver troca naquele momento.
E como já era de se esperar, ele deixou cair um livro da escrivaninha e logo depois tropeçou nele, numa sequência que quase os levou a cair em cima da mesa de vidro... quase.
Quando conseguiu desviar, ele acabou pisando na capa do disco que estavam ouvindo, a capa acabou escorregando para a varanda e os dois se desequilibraram no batente.
Ela estava achando tudo muito engraçado, toda a cena desastrada dele, e sua determinação em dançar, então não se opôs quando ele a puxou novamente para si, sinalizando que a dança estava apenas começando.
Porém, ao puxá-la, ele estava empolgado, e assim nessa empolgação, acabou usando força demais.
Ela que se deixou levar como pena, atravessou violentamente o vidro da janela, estrilhaçando-o em mil pedaços banhados de sangue.
Do oitavo andar se via um corpo deformado no cimento.
Ele agora estava só.

2 comentários:

Unknown disse...

Claro que não é a mesma coisa. Antes eu ria do começo ao fim do post. Agora eu fiquei meio sei-lá-o-que por ela ter morrido assim óo'

Clara disse...

-q