quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Meu querido Pitbull.

A mudança já estava quase pronta. Jennyfer atingiu a maioridade, passou em medicina e agora saía da casa de seus pais. Há semanas eles se entristeciam com o passar dos dias. Há semanas ela ansiava cada vez mais aquele momento.

Tirou a carteira de motorista e comprou um carro com o dinheiro da poupança. Ainda não podia ser considerada uma pessoa segura no volante, mas arriscaria carregar a mudança sozinha. Ia morar com Medéia num apartamento nos arredores da universidade.

Juntou suas bugigangas e deixou outras. Não queria levar muita tralha. Mas havia uma coisa que ela fazia questão de levar: o pitbull. Mesmo estando velho, ele fizera companhia à ela durante toda a sua infância. Corridas no meio da rua, lambidas no rosto ao chegar em casa.
Eles até dormiam juntos, nos dias em que Jimmy não fedia tanto.Quando iam para o interior, corriam entre as vacas, pisando nos seus restos fisiológicos. Foi uma infância feliz e bem vivida.

Até que Jimmy adoeceu. Ele não comia mais, não corria, não brincava, não lambia. Ficou cego, surdo e tecnicamente mudo. Era óbvio que sua morte estava próxima. Jimmy era um cachorro - que mesmo tendo uma idade avançada - de grande porte, brincalhão, que babava demais. Mas ela o amava. Não poderia deixá-lo sob os descuidados cuidados de seus pais. Isso poderia agravar sua - já precária - saúde.

Chegado o grande dia, seus pais a aguardavam na porta. O pai tentava transpassar uma expressão de "não me importo". Enquanto a mãe segurava um lencinho, aos prantos, soluçando. Não havia motivo pra tanto drama. Ela moraria a apenas 3 quarteirões dali.
As malas já estavam no carro e Medéia estava sentada no banco do carona, com Jimmy no colo, que não tinha mais condições de viajar sem apoio físico e emocional.

Terminadas as despedidas, Jennyfer entra no carro e corre o mais rápido possível com o seu Gol prata de placa DIE-0666. No meio do trajeto, Jimmy apresenta ataques epiléticos com falta de ar.

- AAAAH, O QUE EU FAÇO?!

- Abre a janela! Bota a cabeça dele pra fora! Rápido!!

Poucos segundos depois da ação, Jimmy volta ao seu estado de saúde instável estável. Jennyfer se preocupa.

- Medéia, ele já é idoso, fecha a janela, o ar pode fazer mal.

- Tá, ninguém quer que aconteça uma tragédia, certo?

- Certo.

Mas Medéia apertou o botão antes de tirar a cabeça de Jimmy. A janela subia e pressionava o pescoço do pitbull, que voltara a latir. Eram latidos agudos, latidos de agonia que clamavam por socorro. Medéia, desesperada, só apertava o botão pro lado errado, o que só aumentava a dor do cão idoso.

- AAAH, E AGORA? ELE TÁ SUFOCANDO!!

- PUXA A CABEÇA DELE, MEDÉIA, PUXA!

- ARGH, NÃO CONSIGO, TÁ PRENDENDO COM MUITA FORÇA!!

Jennyfer entra em pânico e começa a tentar ajudar Medéia. O carro sai descontrolado pela avenida. Jennyfer puxa o cachorro pela coleira, ao mesmo tempo que puxa o volante pra direita. O carro vai em direção à calçada. Mas Jennyfer não viu o poste.

Só viu a cabeça de Jimmy voando por causa do impacto com o poste e o sangue espirrando em seu rosto. Gritos ensurdecedores saem de dentro do carro, que continua descontrolado, chocando-se com inúmeros veículos que transitavam calmamente na avenida. O carro se aproximava de um cruzamento, Jennyfer não conseguia manter o controle sobre o carro. Então ele bate num caminhão em sua perpendicular.

Ninguém quer que aconteça uma tragédia, certo?

Um comentário:

Anônimo disse...

coitadinho.. IAHSIAHISHIAHS'